Maio de 2026
Número 17
Oiê! Tudo bem? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Fim de Partida; Gota D’Água; Nada É Suficiente+Comunhão; Oleanna; Queda de Baleia e Tip.
FIM DE PARTIDA (1957), de Samuel Beckett
A ficha técnica deste espetáculo demonstra o potencial desta montagem de se tornar um evento na cena teatral paulistana. Sob a direção de Rodrigo Portella (diretor premiado e elogiado pela crítica por sucessos como Tom na Fazenda e (Um) Ensaio Sobre a Cegueira), Marco Nanini e Helena Ignez (artista lendária do cinema brasileiro) retornam aos palcos para encenar um dos clássicos do dramaturgo surrealista irlandês dentro de um cenário de Daniela Thomas.
Na trama, Hamm (Marco Nanini) e seu criado Clov (Guilherme Weber) possuem uma dependência física e emocional, um vínculo atravessado pela crueldade cotidiana no qual Clov é tanto serviçal quanto filho adotivo de Hamm. Eles vivem em uma casa abandonada (ou bunker) num mundo pós-apocalíptico enquanto esperam por algum “fim”, ao mesmo tempo, que cuidam dos pais geriátricos de Hamm (Helena Ignez e Ary França).
Esse mundo liminal, um espaço desprovido de vida ou encanto, é muito presente na dramaturgia de Beckett, alguém que fez parte da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra e escapou de ser pego pela Gestapo algumas vezes. É o mundo de alguém que viu de perto os horrores da guerra e viveu seu cotidiano absurdo. Ainda que tenhamos apenas dicas de como esse mundo parece nas falas dos personagens (estamos constantemente presos no caixote sufocante elaborado por Daniela), essa imagem se soma a de diversos outros espetáculos deste ano e corrobora com a sensação esquisita de estarmos fazendo teatro em meio a ruínas.
Nesta peça, a sensação é derrotista se nos apegarmos a Hamm (que, inclusive, representa um autoritarismo caduco), mas pode nos levar a algum lugar se almejarmos uma liberdade futura para Clov. Entretanto, Beckett não é conhecido por oferecer saídas, mas retratar ciclos viciosos, padrões difíceis de serem rompidos. Ao mesmo tempo, a velhice de Hamm também abre espaço para pensarmos o envelhecimento e suas vulnerabilidades, dentre elas a demência (representada pelas interações do protagonista com o seu entorno estéril) e a falência física (que também aparece nos pais de Hamm).
Ainda que os nomes na ficha técnica pareçam apontar para um dos destaques deste ano, algo escapa da montagem para que ela de fato deixe um impacto na plateia. O ritmo é lento e ainda que o humor pipoque aqui e ali, ele é pouco aproveitado. Tenho a teoria de que uma montagem de Beckett, para ser efetiva precisa se ancorar em uma palhaçaria ingênua para conseguir capturar seus espectadores. Existem instantes de grande beleza quando o fazer teatral se revela; Helena Ignez faz uma participação tão afetuosa que nos deixa até chateados por seu papel ter tão pouco tempo em cena; e em alguns momentos é possível ter lampejos da magnitude de Marco Nanini em cena.
“Fim de Partida” iniciou sua temporada no Teatro Paulo Autran, no dia 30 de abril, onde permanece em cartaz até hoje. Os ingressos para a última apresentação estão esgotados.
GOTA D’ÁGUA, NO TEMPO (1975), de Chico Buarque e Paulo Pontes [Cia Coisas Nossas de Teatro, 2026]
Escrito sob a sombra da ditadura militar, o musical transpõe o mito de Medeia (em especial, a versão teatral escrita por Eurípedes) para um conjunto habitacional carioca no qual, embora seus habitantes tenham comprado suas residências, as parcelas da quitação da dívida com o primeiro proprietário parecem nunca ter fim – alguns, sem ter como pagar, se tornam devedores. Dessa forma, a versão brasileira desloca a trama sobre vingança e fúria desmedida para uma denúncia social.
Há 20 anos Georgette Fadel havia levado aos palcos uma versão deste musical ao interpretar Joana, a qual conferiu o subtítulo de “um breviário”. Co-dirigida por Heron Coelho e com Cristiano Tomiossi no papel de Jasão, a montagem foi um sucesso de crítica e Georgette chegou a vencer o prêmio Shell de Melhor Atriz por sua interpretação. Agora, Georgette e Cristiano retornam aos seus personagens e assumem, juntos, a direção da nova montagem. O subtítulo desta versão procura dar conta da permanência dos conflitos sociais presentes na trama apesar dos avanços (e retrocessos) promovidos nas últimas duas décadas.
O papel de Joana pode ser muito duro para uma atriz por se tratar de uma protagonista tomada pela mágoa, o rancor e a sensação de injustiça, exigindo física e emocionalmente de sua intérprete. Entretanto, em determinado momento, senti que Georgette, na verdade, estava se divertindo ao interpretar aquela personagem. Ela saboreava cada fala e aproveitava a transformação do Teatro Anchieta em uma arena para se amparar no público, segurando suas mãos, e falar diretamente nos olhos das espectadoras.
Sua atuação convocava a plateia a ponto de fazê-la se sentir parte do espetáculo, implicada naquele drama. Falas escrotas do Jasão eram recebidas com murmúrios da plateia e até um “Ô loco”. E em determinado momento, quando Joana pergunta retoricamente “Vocês vão me ajudar?”, as mulheres da plateia responderam prontamente que “Sim”.
A opção de colocar arquibancadas no palco do Teatro Anchieta também fazia com que artistas e públicos se misturassem, dando a impressão de todos presentes serem habitantes da Vila do Meio Dia – movimento que amplificava a convocação da plateia e possibilitava a identificação dos espectadores com as personagens. Não é meramente um “teatro imersivo”, mas a devolução do teatro ao seu status de ágora, de espaço para debate.
É claro que a potência de Georgette não se concretizaria sem o desempenho afiado dos demais membros do elenco (11 artistas ao todo), cujas interpretações transformavam os personagens (escritos não só para aludir ao original de Eurípedes, como também para servirem de alegorias,) em pessoas reais, de carne e osso. Com destaque para a atuação de Débora Veneziani, Laruama Alves, Lilian Regina e Mawusi Tulani nos papéis das vizinhas, comadres sempre dispostas a apoiar a amiga e iluminando todo o humor presente no texto. O Creonte de José Eduardo Rennó era um homem banal, um banana que teve a sorte do poder cair em suas mãos; mostrando que a vilania não vem exatamente de “gênios do crime”, mas de homens cuja visão se direciona apenas em garantir a sua fatia farta do bolo. E se você olhasse no fundo de seu coração, conseguiria sentir simpatia até mesmo pela patricinha da Alma interpretada por Lívia Camargo.
Conhecida por seu desfecho tão repulsivo quanto fascinante no qual Joana mata seus filhos para se vingar, a montagem optou por não espetacularizar a cena e executá-la sem chamar atenção para a morte das crianças. Essa opção acabou por a realçar os debates sociais presentes no texto, como a “guerra dos sexos” (aqui, o embate entre os papéis hegemônicos do homem e da mulher na sociedade) e a luta de classes (presente na maneira como o capitalismo se vale do sonho da casa própria para explorar o proletariado até a última gota). Com este espetáculo, a Cia. Coisas Nossas de Teatro reitera o musical como um clássico do Teatro Brasileiro e firma Gota D’Água como a obra-prima de Chico Buarque.
Esta montagem de “Gota D’Água” estreou no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, no dia 27 de março, onde permaneceu em cartaz até 03 de maio. O espetáculo também foi apresentado no Centro Cultural do iBT no dia 23 de maio no contexto da Virada Cultural.

NADA É SUFICIENTE (2006) + COMUNHÃO (2010), de Daniel MacIvor [Mosaico Produções, 2026]
As peças do dramaturgo canadense foram apresentadas como uma “dobradinha”: às sextas, ambas eram levadas ao palco; enquanto apenas Comunhão era apresentada aos sábados e apenas Nada é Suficiente aos domingos. Além de serem do mesmo autor, ambas compartilhavam o mesmo elenco: Lucia Bronstein e Luisa Micheletti; a atriz Magali Biff vinha para somar ao elenco de Comunhão. O que havia de diferente era a direção de Pedro Brício em Nada é Suficiente, e a de Susana Ribeiro em Comunhão – ainda que ambas propostas dialogassem entre si.
Ambos os espetáculos versam sobre a complexidade das relações humanas e a mortalidade, dando destaque para os relacionamentos femininos. No primeiro, a história de duas mulheres se descobrindo apaixonadas uma pela outra. No segundo, o relacionamento entre mãe (interpretada por Magali Biff) e filha (Lucia Bronstein), intermediado pela terapeuta da mãe (Luisa Micheletti).
Originalmente intitulada A Beautiful View, a peça Nada é Suficiente já havia sido encenada no Brasil, sob o nome A Primeira Vista em 2012, com Drica Moraes e Mariana Lima sob a direção de Enrique Diaz. Foi Enrique quem dirigiu também a montagem brasileira de In on It, sucesso de público e crítica. É possível estabelecer relações entre ambos os textos: a metalinguagem e o diálogo com o público; o desenvolvimento do relacionamento amoroso de um casal homoafetivo; os ressentimentos que podem surgir devido a falhas de comunicação; a noção de mortalidade permeando a história do casal – como um alerta para lembrá-los/as de que o importante mesmo é deixar as diferenças de lado e saborear o tempo juntos. Nesta peça, a química de Lucia e Luisa nos aproxima das personagens e faz desejar um final feliz para elas, torcer para que elas vençam o medo daquilo que lhes parece desconhecido – algo tão assustador quanto excitante.
Já novidade para os conhecedores das peças de Daniel MacIvor vem em Comunhão. A estrutura da peça é pautada em três cenas de diálogo: Mãe e Terapeuta; Mãe e Filha; Filha e Terapeuta. No centro de tudo está a relação familiar: uma mãe lidando com o alcoolismo que acabou fazendo-a se distanciar de sua filha; a jovem, antes rebelde, agora parece ter se convertido a uma religião cristã conservadora muito próxima ao mormonismo ou evangelismo. Ao mesmo tempo, a terapeuta dá alguns sinais de não estar contente com os rumos de sua profissão. Já nesta peça, o magnetismo de Magali conduz o interesse do espectador: ao mesmo tempo que conseguimos entender o que tornaria aquela mulher uma pessoa difícil de lidar, sua composição de uma personagem doidinha e que visivelmente está tentando melhorar também nos faz sentir carinho por ela – a atriz parece saborear o texto que lhe foi dado, aproveitando cada fala. Lucia e Luisa se transformam em outras figuras e, se antes a tensão entre elas gerava encanto, em Comunhão a cena que elas compartilham gera uma tensão pautada pelo estranhamento – agora, ambas tentam compreender não a si mesmas, mas a uma terceira pessoa.
“Comunhão” e “Nada é Suficiente” iniciaram sua temporada no Sesc Ipiranga no dia 17 de abril. Enquanto a primeira encerrou sua temporada ontem, a segunda encerra no dia de hoje – os ingressos estão disponíveis na Central de Relacionamento Digital ou em qualquer unidade do Sesc SP.
OLEANNA (1994), de David Mamet
Idealizada por Velson D’Souza, esta montagem traz o texto do dramaturgo estadunidense uma terceira vez para os palcos brasileiros. A montagem atual é sediada pelo Teatro Vivo e realizada dentro de uma sala retangular acoplada ao saguão do teatro, o que coloca o espectador ainda mais perto da ação. O espetáculo é interpretado pelo próprio Velson, no papel de John, enquanto Julianna Gerais é a atriz titular do papel de Carol – Lara Mendes, alterna o papel com ela em sessões especiais.
A peça narra o confronto entre um professor universitário no processo de obtenção de uma promoção, e uma de suas alunas com dificuldades no curso. Inicialmente, Carol procura John no seu escritório para pedir ajuda com o seu entendimento do material da disciplina. A dinâmica muda drasticamente quando Carol apresenta uma queixa formal contra John ao comitê de avaliação da universidade, acusando-o de sexismo, elitismo, comportamento inadequado e assédio sexual, com base nas conversas particulares que eles tiveram.
A própria estrutura dramática da peça nos leva a descortinar aos poucos o que de fato está acontecendo e a gravidade da situação. A ação se concentra no interior do escritório de John, só temos acesso ao que ocorre lá. Por isso, para se ter uma opinião sobre o comportamento do professor em sala de aula precisamos acreditar na palavra de um dos dois personagens.
A primeira cena aparenta ser banal, sendo possível acreditar que Carol teria “entendido errado” o que se passou naquele momento e que sua denúncia não teria passado de um mal entendido. Entretanto, olhares atentos perceberiam que alguns comportamentos de John parecem fora de lugar: as interrupções constantes às falas de Carol para explicar alguma coisa para ela; a impaciência dele ao lidar com os telefonemas recebidos; além do descompasso em seu discurso que professa um abandono da rigidez acadêmica e uma negação da hiper-valorização do ensino superior, porém utilizando palavras rebuscadas. As cenas seguintes acabam por revelar o verdadeiro caráter de John. Uma regra básica da dramaturgia diz que a maneira como um personagem age nos mostra quem ele é, sendo justamente as situações de pressão extrema as mais reveladoras — sob pressão, John se torna progressivamente irritado, agressivo e desesperado para manter o status quo.
É tanto uma peça sobre falhas na comunicação quanto sobre o desequilíbrio de poder nas relações. A direção de Daniela Stirbulov demonstra esse desbalanço por meio do posicionamento dos atores no espaço cênico e do próprio cenário. Uma mesa verde enorme e com uma cadeira elegante é onde John senta no início da peça, o livro que ele publicou e utiliza como material didático é da mesma cor da mesa e parece se adequar enquanto decoração para a mobília. Já a mesa e a cadeira reservada aos estudantes que o visitam são brancas e pequenas (a cadeira é daquelas utilizadas em salas de Infantil e Fundamental I) e seu calhamaço destoa ao ser colocado em cima delas. Até a própria diferença de altura entre Velson e as atrizes demonstra o desequilíbrio – isso sem falar no fato de ambas serem mulheres negras, o que dá contornos racistas ao elitismo de John.
Enquanto isso, tanto o telefone quanto o caderno, onde Carol anota o conteúdo das suas aulas e as provas de suas acusações, são vermelhos. Quando a peça foi elaborada, os celulares ainda engatinhavam, então a interrupção impositiva do telefone naquele período parece profética de nossa relação com os aparelhos móveis. Representada pelo caderno, a invenção da escrita é tida como o marco inicial da História humana por possibilitar a documentação não apenas de certificados e tratados políticos, como também relatos de testemunhas oculares – entretanto, ainda há a ressalva de que aquilo que está escrito sempre passa pelo crivo da pessoa que empunha a caneta.
Outra escolha interessante da direção está em posicionar o público frente a frente em duas fileiras opostas (os atores ficam no centro). Com isso, Daniela remove um suposto caráter relativista da peça, com o qual seria possível entender o texto como um debate sobre “duas visões diferentes de uma mesma situação” ou “um confronto de narrativas”. O público é testemunha ocular dos eventos e também pode verificar como seus colegas de plateia estão reagindo ao que se passa em cena. Justamente por também estarmos sendo observados, passamos a questionar nossas opiniões sobre o que assistimos e a refletir se estamos pendendo mais para favorecer o opressor do que se solidarizar com a oprimida.
SERVIÇO
Onde? Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 - Vila Cordeiro)
Que dias? Sexta e sábados, às 20h | Domingo, às 18h
Até quando? 19 de julho
Quanto custa? R$ 50 (meia-entrada) e R$100 (inteira)
Como posso comprar os ingressos? No Sympla
QUEDA DE BALEIA OU CANTO PARA DANÇAR COM MINHA MORTE (2025), de Bruna Longo [Teatro Volátil]
Ao ser confrontada com a morte de seu pai, a atriz Bruna Longo desenvolveu um fascínio peculiar sobre o tema da mortalidade, em especial, sobre os ritos de passagem que a humanidade (e grupos de animais) desenvolveram para lidar com o luto. Seu medo foi transformado em pesquisa, sua pesquisa (como não poderia deixar de ser), foi transformada em arte.
Encenado dentro da capela do Cemitério do Redentor, um lugar charmoso e até agradável, o monólogo tem como moldura o velório da própria Bruna (ou da Bruna-personagem). Como uma Brás Cubas, ela se levanta para contar as pistas que descobriu sobre a morte em um ritual que pode tanto trazer conforto, quanto nos ensinar a viver melhor. O próprio espaço potencializa o teor ritualístico do Teatro e o ritmo suave com o qual Bruna nos conduz por sua jornada nos coloca no terreno propício para a reflexão.
Só se morre uma vez. E não é possível contar aos vivos o que de fato aconteceu, uma vez que a passagem foi feita. Trata-se de um terreno desconhecido e, por isso, o poder imaginativo da arte é o que possibilita elaborar sobre o imponderável. A arte também foi a primeira ferramenta desenvolvida pela humanidade para possibilitar a cura de traumas e sofrimentos pelo próprio reconhecimento da existência da dor.
Outra coisa tão desconhecida quanto a morte é a pessoa que está sentada ao nosso lado – jamais saberemos com exatidão o que é andar nos sapatos dos outros. De uma experiência pessoal e biográfica, Bruna (e bons artistas), alçam suas aflições à universalidade. Assim, a peça equilibra filosofia, ciência e autoficção para alcançar o próximo e devolver à morte seu caráter coletivo.
A terceira temporada de “Queda de Baleia” no Cemitério do Redentor ocorreu entre 14 de março e 17 de abril.
TIP (2025), de Milla Fernandez
Com o subtítulo “(antes que me queimem, eu mesma me atiro no fogo)”, o solo escrito e interpretado por Milla Fernandez faz exatamente isso: com coragem, a atriz expõe para os espectadores o período no qual trabalhou como camgirl durante a quarentena. Por se tratar de um ofício que lida com a satisfação dos prazeres (muitas vezes eróticos) de outras pessoas, ele é tido como uma “mancha” na trajetória de qualquer profissional, especialmente uma atriz que sequer iniciou sua carreira.
Misturando experiências reais com uma dose de ficção, ela conta sobre o desemprego ocasionado pela quarentena que a levou a escolher esse trabalho para manter o sustento ao mesmo tempo que compartilha as frustrações de uma atriz considerada uma promessa durante a faculdade, mas que depois ouviu bem mais “nãos” do que “sim”. No fim das contas, ambos os ofícios se parecem: de um lado, as camgirls assumem uma ‘persona’ e realizam atos que irão agradar o cliente do outro lado da tela; de outro, atores e atrizes precisam ter o tipo físico correto para o papel e desvendar exatamente o que o produtor de elenco e o diretor querem ao conduzirem um teste.
Milla é experta. Ela se vale do monólogo para exibir seus talentos como atriz. Do seu timming cômico a sua precisão para lavrar as palavras (no inglês original!) de um monólogo dramático da personagem Constanza, da peça King John; passando por cenas enérgicas que demonstram a sua fisicalidade até um número de saxofone. Todas as coisas que ela sonhava fazer enquanto uma atriz de sucesso são executadas no decorrer do espetáculo.
Só que, no fim das contas, é a experiência como camgirl que faz nossa heroína aprender e aprimorar suas ferramentas de atriz – em determinada cena, ela relata como um cliente sentia tesão em vê-la bocejar, um gesto natural que muitos atores têm dificuldade de reproduzir em suas atuações. Se antes Milla achava que era necessário aprender a falar outros idiomas, tocar um instrumento e ter um monólogo shakespeariano na ponta da língua; agora ela percebe que a magia acontece no contato com sua plateia, na relação que se estabelece com ela, e que essa é uma relação na qual é preciso ter jogo de cintura para lidar com o improviso.
É por isso que o espetáculo funciona. Porque, mesmo que esteja digitando em um laptop as saudações para a plateia que entra no Teatro YouTube (projetadas no fundo do palco), ela não deixa de segurar a mão do espectador. Porque ela aproveita da nossa curiosidade em um terreno meio desconhecido, meio tabu, mas que todo mundo já fantasiou em desbravar. Porque apesar dos toques de ficção, ela é franca.
A direção de Rodrigo Portella (anteriormente seu professor na faculdade e, hoje, também o marido que a apoiou em sua escolha por trabalhar como camgirl), deixa a caixa preta do palco livre para que Milla possa se conectar com a plateia sem grandes distrações.
O mais chamativo do cenário elaborado por ele são dois tapetes vermelhos (em formato de X) que remetem tanto a esteira que leva a premiações prestigiosas quanto aos símbolos dos websites para maiores de idade. Se antes Milla tropeça nos tapetes, com o tempo ela aprende a manipulá-los. Depois de assistir a atriz se jogar no fogo, resta aos espectadores aguardarem para ver a fênix sair das cinzas.
“TIP” iniciou sua temporada no Teatro YouTube em 1º de maio, onde permanece em cartaz até hoje – os ingressos para a última sessão estão disponíveis na Eventim.
Até a próxima! 👋
Você também assistiu alguma dessas peças? Ficou animado para ver alguma delas? Conta pra mim nos comentários! Espero que você tenha gostado das minhas opiniões singelas - nesse caso, lembre-se de deixar seu like. A próxima edição chegará na sua caixa de entrada no dia 28 de junho.
Enquanto isso, que tal me seguir nas redes sociais? Instagram | Bluesky | LinkedIn
E não deixe de seguir a Revista Galérica também, poxa… Instagram | LinkedIn | Newsletter “Agenda Cultural”








