Junho de 2026
Número 18.2 | Hamlets!
Normalmente, eu elenco as peças nesta newsletter seguindo a ordem alfabética de seus títulos. Só que, dessa vez, eu tinha um recorte mais interessante para dividir as duas edições de junho: o tema. Hoje, irei comentar apenas peças que, de alguma forma, se valem da obra-prima de Shakespeare para construir dramaturgias próprias – e também avalio a interpretação de Ícaro Silva no papel titular de Hamlet, sonhos que virão.
MEU PAI, HAMLET (2026), de Julia Pedreira, Marco Monteiro e Miguel Antunes Ramos
A peça foi idealizada a partir de um dispositivo simples: Julia (atriz), trocaria de papel com seu pai Marco (percussionista). Enquanto ela se desafiaria a aprender a tocar um trecho de A Sagração da Primavera, ele se desafiaria a interpretar um trecho do clássico de Shakespeare. A ideia surgiu por Julia temer a passagem do tempo; enquanto Marco, em seu ofício, domina este elemento. Com o espetáculo, a jovem busca preservar a figura de seu pai ao transformá-lo em um personagem.
O resultado é uma peça-performance que se vale da simplicidade e do bom humor para versar sobre temas como relações entre pais e filhos, memória, identidade e afeto. Todas as temáticas, na verdade, estão entrelaçadas. No decorrer do espetáculo os artistas exploram suas identidades por meio dos ofícios que garantem seu sustento, por meio de seus papéis no cerne familiar, ou até por suas origens – Marco, vem de uma família humilde e, seu sonho de infância, era ser skatista, atividade que ele não abandonou.
A escolha das obras poderia ter sido por imporem um desafio mesmo ao mais experimentado entre os instrumentistas ou a atriz mais versátil; poderia ter sido porque ambas se tornaram, no imaginário contemporâneo, símbolos de sofisticação e erudição. Na verdade, a escolha está pautada pela memória: Hamlet foi a primeira peça que Marco viu Julia interpretando em num curso livre (ela fazia o papel do fantasma), naquele mesmo ano a jovem viu seu pai executando A Sagração da Primavera no Municipal.
Como o título indica, o clássico de Shakespeare é o que acaba ganhando mais destaque. Afinal, tudo se inicia com o pedido do fantasma para que o jovem dinamarquês lembre-se de quem ele é – colocando-o em uma posição na qual se sente inadequado em performar, impondo uma ação que o protagonista hesita em executar e lhe pedindo “não se esqueça de mim”. A performance de Julia e Marco espelha essa inadequação de Hamlet em sua jornada para se firmar como Rei da Dinamarca.
O público é conquistado pela honestidade que os artistas expõem ao subir ao palco. Erros de execução são assumidos como parte natural do processo artístico. Assisti a peça em uma sessão recheada de atores e atrizes na plateia, é claro que eles se deliciaram de rir quando Marco descobre estar fora do foco de luz antes de dar seu grande monólogo – muito provavelmente por terem identificado naquilo algo que havia acontecido com eles mesmos em seu processo de formação.
O afeto e a brincadeira transbordam quando eles decidem dublar um trecho de O Rei Leão – uma adaptação da tragédia shakespeariana que muitos têm como uma lembrança nostálgica, assim como seu primeiro contato com a noção da mortalidade. O erro de Julia em tentar eternizar seu pai como personagem está no fato do Teatro ser uma forma de arte efêmera: uma vez que a peça termina, ela imediatamente se torna passado. Ao menos, a dupla terá boas memórias para guardar: de um momento divertido que passaram juntos; de um momento no qual precisaram apoiar-se um no outro; de um momento no qual puderam transmitir seu afeto para aqueles que tiveram a curiosidade de vê-los brincar de ator e brincar de instrumentista.
“Meu Pai, Hamlet” estreou no Teatro Estúdio em 23 de maio, onde permaneceu em cartaz até 14 de junho.
PRAZER, HAMLET (2022), de Ciro Barcelos
Escrita e dirigida por Ciro Barcelos, a peça tenta condensar a trama da tragédia de Shakespeare em um monólogo de uns 90 minutos. Para isso, a história do espetáculo se debruça em um ator (nesta temporada interpretado por Eduardo Pelizzari) prestes a entrar em cena para interpretar Hamlet – seus receios são materializados na figura do próprio príncipe dinamarquês que parecer ter vindo assombrá-lo.
A tentativa de versar sobre os mesmos temas que o original de Shakespeare, ao mesmo tempo que dá conta de sua história de maneira condensada, não é realizada a contento. Enquanto a história da tragédia é relatada de forma episódica (e talvez até confusa para quem não a conheça), seus temas nunca são trabalhados com profundidade.
Ciro tenta oferecer algo de diferente ao investigar se o príncipe teria realmente amado Ofélia e, ainda que se possa duvidar da sinceridade deste amor, o texto original oferece justificativas tanto para negá-lo quanto para afirmá-lo. O personagem de Eduardo baseia sua afirmação exclusivamente a partir de uma cena na qual Hamlet rejeita a moça, mas os indícios nos lembram que ele sabe estar sendo observado e que, portanto, precisa fingir loucura. Ele propõe que Hamlet, na verdade, (também) gostava de rapazes: a partir de uma única fala dirigida a Horácio na qual o príncipe diz amá-lo – uma declaração que sensibilidades contemporâneas enxergam algo para além da amizade, mas que talvez na época do Bardo não fosse estranho um homem dirigir a outro para professar companheirismo e profunda admiração. Essa “investigação” não dura mais que uns cinco minutos de espetáculo.
É meio estranho considerar que talvez Eduardo interprete o príncipe com um sotaque mais afetado e afeminado justamente pela tese de que Hamlet poderia ser homossexual (ou bissexual) – ao passo que o ator na peça-dentro-da-peça tenha uma voz mais grave e máscula. Ciro arrisca alguma transgressão ao colocar Eduardo vestindo apenas um cinto de castidade em determinada cena, mas não chega tão longe – ao trabalhar uma sexualidade incerta do personagem, a simbologia sugerida por um cinto de castidade parece mais de mau gosto do que efetivamente uma ruptura.
Depois de ficar completamente nu (mas não conceder aos espectadores um nu frontal completo, já que o ator se cobre com um manto) e depois de fazer um trecho esquisitíssimo simulando uma masturbação antes de interpretar (ou “incorporar”) Hamlet, Eduardo precisa sair de cena para vestir seu figurino novamente deixando o palco completamente vazio durante um tempo consideravelmente longo – algo impensável para um monólogo. É nesse contexto no qual o famoso solilóquio “Ser ou não ser” é ouvido: através de um áudio pré-gravado. Teria sido um bom momento para sair mais cedo do auditório antes do final da apresentação.
“Prazer Hamlet” iniciou sua temporada no Teatro BDO-Jaraguá no dia 30 de maio, onde permaneceu em cartaz até 28 de junho.
ROSENCRANTZ E GUILDENSTERN ESTÃO MORTOS (1966), de Tom Stoppard [Yorick Arte, 2026]
A trama escrita por Stoppard subverte o clássico de Shakespeare ao narrar a história a partir do ponto de vista de dois personagens secundários da trama. Se O Rei Leão é uma adaptação de Hamlet, O Rei Leão 3 – Hakuna Matata é uma adaptação de Rosencrantz e Guildenstern estão mortos. Na tragédia, estes personagens são amigos de infância do príncipe e foram convidados pelo rei para “alegrar” Hamlet e descobrir o que lhe aflige – isso gera uma dúvida quanto a lealdade deles para com o amigo: a quem eles estão servindo? O que eles ganharão com isso? A peça de Stoppard, por outro lado, confia plenamente na inocência da dupla e os coloca para navegar o mundo confuso da corte dinamarquesa, sem nunca compreender o que está acontecendo.
Ao assistir Hamlet no canteiro de obras do Cine Copan, um espectador pode ser tomado por uma sensação sinistra. Somado a uma aparente decadência arquitetônica, a falta de tratamento acústico e o uso de microfones faz as falas proferidas pelo elenco ecoarem pela imensidão do espaço. É como se, para além da figura misteriosa no início da peça, todos os personagens fossem fantasmas encenando uma tragédia escrita há uns 400 anos e contando uma lenda medieval ainda mais antiga.
Sob a direção de Dagoberto Feliz, a atual montagem da obra seminal de Tom Stoppard amplifica essa sensação ao tratar seus personagens titulares (interpretados por Dom Capelari e Daniel Haidar) como verdadeiros fantasmas. Ao entrar no saguão do Cine Copan, os espectadores se deparam com dois corpos estirados em macas de necrotério, cobertos por um pano. Eles se levantam por um estímulo de um Ator (Victor Mendes) e, sem saber exatamente como chegaram até ali e sem memórias de sua vida pregressa, passam a viver a história contada por Shakespeare até serem retirados de cena. Até o figurino elaborado por Luísa Galvão reforça a fantasmagoria por ser todo branco e com peças transparentes.
Ros e Guil passam muitos momentos sozinhos, mas há no texto passagens do clássico. Nestes momentos, Dagoberto opta por recriar as cenas elaboradas por Rafael Gomes para seu Hamlet, encenando-as no exato local do palco em que acontecem durante a peça de Rafael e até repetindo as marcações. Na primeira vez que uma cena de Hamlet é recriada, o Ator dubla gravações das falas do Rei Claudio e da Rainha Gertrudes, proferidas por Eucir de Souza e Susana Ribeiro na peça de Rafael – suas vozes novamente ecoam pela amplidão do Cine Copan, dessa vez sem o suporte de um corpo físico presente.
Algo parece fora de lugar nas recriações das cenas, construindo uma tragédia circular para os novos protagonistas. Qualquer peça pode ser entendida como um ciclo temporal, já que sua equipe faz exatamente o mesmo espetáculo, repetindo as mesmas marcações, várias vezes por semana, enquanto fingem estar experimentando aqueles gestos pela primeira vez. Aqui, a existência dessa estrutura inerente de repetição contínua é exposta: depois que a encenação da montagem termina, o público retorna ao saguão e encontra os corpos dos protagonistas dispostos na mesma formação do necrotério no início da peça. Enquanto as cenas de Hamlet são recriadas, Guil participa delas demonstrando estar sentindo um déjà vu – no final da peça, ele entende o motivo e diz: “...deve ter havido um momento, um começo, em que podíamos ter dito – não. Mas de alguma maneira nós perdemos. Bom, da próxima vez, nós já vamos saber.”
Os nomes destes protagonistas foram escolhidos por Shakespeare por serem extremamente banais na Dinamarca daquela época. O fato de ambos terem o mesmo número de sílabas faz com que os nomes sejam intercambiáveis, Banana 1 e Banana 2 – é a mesma coisa que chamar seus filhos de Pedro e Paulo. Dom e Daniel demonstram cumplicidade no decorrer do espetáculo e disposição para jogar com o outro, sem deixar a peteca cair. Enquanto o Ros de Dom é alegre e ingênuo, o Guil de Daniel é mais cerebral, tenso e irônico. Daniel é o único ator que de fato tem um personagem titular na montagem de Hamlet e o reprisa aqui – o fato de Dom ser uma adição, também é usado para realçar a natureza esquisita daquele ciclo temporal. Por fim, Victor conduz a narrativa hamletiana se destrinchando em diversos papéis que cabem ao seu personagem, o Ator, (curiosamente, algo que ele mesmo tem feito em Hamlet) e exibe as características adoráveis de seu palhaço.
SERVIÇO
Onde? Cine Copan (Av. Ipiranga, 200 – Centro)
Que dias? Domingos, às 20h30 | Segundas, às 20h
Até quando? 13 de julho
Quanto custa? R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia entrada)
Como posso comprar os ingressos? Na plataforma INTI.

Ícaro Silva interpreta Hamlet no Cine Copan
A graça de assistir a uma mesma peça, mas com artistas diferentes, está justamente em perceber o que um outro ator traz de novidade ao papel. Tanto Gabriel Leone como Ícaro Silva encararam o príncipe dinamarquês com destreza e segurança. Ao comparar suas interpretações, notamos propostas diferentes para um mesmo personagem.
A atuação de Gabriel me parece ter sido mais pautada pela precisão. Como se ele tivesse construído uma partitura para todo o espetáculo e a seguisse à risca – uma atuação mais racional, decidida. Seu príncipe dinamarquês também é mais debochado e raivoso. Ícaro vai na direção oposta: seu Hamlet é mais calmo, solar até. Sua atuação parece fluida, vai mudando e se transformando com o sabor da cena. O que se tem aqui é uma complementaridade de Hamlets, como se nem os temperamentos distintos fossem capazes de mudar os rumos da história.
Também tive a oportunidade de assistir ao espetáculo com Giovanna Barros no papel de Ofélia (Samya Pascotto, atriz titular do papel, estava em turnê com O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá). O mesmo ocorreu aqui: enquanto Samya interpreta uma Ofélia mais combativa e indignada, a Ofélia de Giovanna se mostrava mais tenra e resignada. A voz potente de Giovanna chamava a atenção do público, levando-os a escutar prontamente o que a personagem tem a dizer; enquanto isso, a atriz desenhava com cuidado as falas poéticas – tão belas quanto doloridas – que o Bardo presenteou a jovem Ofélia.
SERVIÇO
Onde? Cine Copan (Av. Ipiranga, 200 – Centro)
Que dias? Quinta e sexta, às 20h30 | Sábado, às 16h e 20h | Domingo, às 17h
Até quando? 19 de julho
Quanto custa? De R$ 75 (meia entrada) até R$ 320 (inteira)
Como posso comprar os ingressos? Na plataforma INTI.
Até a próxima! 👋
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