Julho de 2025
Número 07
Oiê! Tudo bem? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Alice de Cor e Salteado, Cenas da Menopausa, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, A Lista, Palhaços, 7 Gatinhos e Sonho Elétrico.
ALICE DE COR E SALTEADO (2012 / 2018), de Jessie Nelson, Steven Sater e Duncan Sheik
No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a população de Londres se refugiou nos túneis do metrô durante os bombardeios aéreos. Durante um desses ataques, a menina Alice (interpretada por Gabi Camisotti) tenta acalentar seu amigo Alfred (Diego Montez), que sofre de tuberculose e parece estar a cada minuto mais próximo da morte, por meio da leitura de Alice no País da Maravilhas. Quando uma enfermeira rasga o livro em uma tentativa de manter a menina longe do amigo como medida protetiva contra a doença, Alice a desafia dizendo que sabe o texto de cor. Com isso Alice e Alfred fogem para o interior dos túneis e aos poucos, seus companheiros de refúgio se transformam nos personagens da história que as crianças contam.
Atualmente em cartaz no Teatro Estúdio, o musical foi encomendado pelo Teatro Nacional de Londres e apresentado originalmente por grupos de jovens ao redor do Reino Unido – sua estreia em uma montagem profissional ocorreu anos mais tarde no Off-Broadway, em Nova York. Sob direção de Gustavo Barchilon, a montagem brasileira segue a proposta estadunidense de valer-se do próprio elenco e seus figurinos (remetendo a aparatos e vestimentas de guerra ou hospitalares) para criar os seres fantásticos do livro de Lewis Carroll além das situações inusitadas – só que dessa vez em um teatro de arena.
Enquanto a menina tenta escapar para um mundo de imaginação e ganhar tempo de vida para seu amigo, a realidade começa a se impor. Assim Alice de Cor e Salteado procura versar sobre esse momento delicado do amadurecimento de uma criança, em especial quando se está passando por situações traumáticas e pelo luto. O escapismo se mostra de maneira evidente quando Alice começa a embaralhar a história e insiste em permanecer mais tempo junto com a Lagarta porque a criatura lhe ofereceu algumas lufadas de seu narguilé, permitindo que a menina enfim relaxasse. Por outro lado, quando Alfred enfim precisa ser levado para uma área de cuidados emergenciais, o médico se transforma no temido Jaguadarte, obrigando a garota a lidar com a presença iminente da morte.
Assim como veremos em O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (citada mais abaixo), é interessante reparar como Alice de Cor e Salteado se vale da convenção teatral para criar a fantasia. O elenco em fila, se transforma na Lagarta, capacetes se tornam as xícaras do chapeleiro maluco e seus companheiros. As mudanças de cena são ágeis transitando entre o mundo encantado e a realidade crua. Dentro de uma arena, o público é atirado para dentro dos túneis. Alice de Cor e Salteado pode parecer simples em sua feitura se comparado aos musicais em cartaz no Teatro Santander ou no Renault, mas é justamente a coletividade do elenco e as imagens criadas por adereços tão simples que tornam a experiência de assisti-lo tão interessante.
A primeira versão brasileira do musical “Alice de Cor e Salteado” estreou em 07 de junho no Teatro Estúdio, onde permanece em cartaz até 04 de agosto. Os ingressos para a sessão de hoje às 16h, amanhã às 20h30 e para o último final de semana de apresentação podem ser adquiridos no Sympla.

CENAS DA MENOPAUSA (2025), de Anna Toledo
O novo espetáculo protagonizado por Cláudia Raia nos dá a sensação de estarmos assistindo àquelas chanchadas que marcaram o teatro brasileiro em meados dos anos 1980 e se tornaram clássicos, como Trair e Coçar é Só Começar ou O Mistério de Irma Vap. Em grande parte, isto é um elogio a Cenas da Menopausa – com exceção do retrato de dois personagens interpretados por Jarbas Homem de Mello que, estes sim, se mostram datados: um vidente, que acaba caindo em estereótipos orientalistas confundidos com práticas do candomblé; além de um cabelereiro presumivelmente homossexual e um tanto egocêntrico.
Quanto ao que iremos assistir em Cenas da Menopausa, o título já diz tudo. Acompanhamos episódios nos quais diferentes mulheres encaram aspectos da menopausa, cada uma à sua maneira. Dentre essas mulheres, testemunhamos a história de Teresa, que está se deparando com os primeiros sintomas de menopausa e não sabe muito bem como lidar com esta nova etapa de sua vida. É uma peça que se vale do humor como uma forma de abordar o tema de maneira descontraída (além de utilizar paródias musicais de hits como Like a Virgin, Total Eclipse of the Heart ou My Favorite Things). A comparação com O Mistério de Irma Vap não é à toa: ao longo de Cenas da Menopausa, Cláudia e Jarbas se desdobram em uma variedade de personagens e, por isso, acabam realizando muitas trocas de figurino – ainda que aqui essas trocas não sejam feitas de formas ágeis ou para trazer mais humor como em Irma Vap, este tipo de brincadeira já foi experimentado pelo casal na comédia musical Conserto para Dois, também de autoria de Anna Toledo.
Essa variedade de personagens em situações cômicas é um dos elementos que traz brilho para o espetáculo. Nele, Cláudia Raia se despe da persona das divas que está acostumada a interpretar para trazer seu lado de comediante. Ao lado de seu fiel escudeiro, a dupla demonstra aptidão para o humor, valendo-se tanto de comédia física, quanto de tiradas disparadas durante os diálogos, como também de quiprocós proporcionados pela dramaturgia. É um humor típico de chanchadas que busca o riso frouxo e, justamente por isso, torna Cenas da Menopausa uma delícia de assistir.
Talvez o único momento que faz a peça perder um pouco seu ritmo é quando o casal faz as trocas de figurinos. Elas ocorrem nos cantos do proscênio, a vista da plateia. Enquanto se desfazem dos personagens da cena anterior e se preparam para a seguinte, Cláudia e Jarbas comentam o espetáculo que estão fazendo e tem pequenas discussões que dizem respeito ao relacionamento conjugal dos dois. Em uma das últimas trocas de figurino, Cláudia faz o diagnóstico do marido apontando que ele também sofre com a andropausa. É uma pena que o tema da andropausa não seja trabalhado de maneira um pouco mais aprofundada nestes interlúdios, uma vez que serve de ponto de contato com o público masculino – uma coisinha que o “marido arrastado de domingo” (como Denise Fraga gosta de chamá-los) poderia levar para casa depois.
Apesar dos pequenos senões citados, o que me interessa mesmo é verificar se o espetáculo funciona. E quanto a isso não há dúvidas. Cenas da Menopausa tem um público-alvo bem delineado e, observando a plateia, constata-se que ela é composta majoritariamente por mulheres de quarenta anos ou mais – mulheres que irão passar pela menopausa, já passaram ou estão passando. Durante a sessão era possível ouvir o riso feminino ecoando por toda a extensão do Teatro Claro MAIS, seguido de pequenos comentários que as espectadoras faziam para suas amigas dizendo que “é bem assim” – era inegável que elas se viam representadas naquelas cenas e também sentiam-se acolhidas. Dessa forma, Cenas da Menopausa prova que o teatro ainda cumpre sua função de ágora. Inclusive, após o término do espetáculo Cláudia conta para as espectadoras que a motivação para este projeto surgiu a partir de sua própria experiência, sem medo de dizer que viveu situações bastante similares às de suas personagens e, por isso, separa 30 minutos para abrir o microfone de forma que suas espectadoras possam compartilhar umas com as outras suas vivências pessoais com a menopausa – sem tabus, e num espaço seguro.
SERVIÇO
Onde? Teatro Claro MAIS SP - Shopping Vila Olímpia (R. Olimpíadas, 360 - Vila Olímpia, SP)
Que dias? Quinta e sexta às 20h; sábado às 17h e às 20h; domingo às 18h
Até quando? 28 de setembro.
Quanto custa? R$250,00 (Plateia Central - inteira); R$120,00 (Balcão Nobre - inteira) e R$50,00 (Balcão).
Como posso comprar os ingressos? Na Uhuu! ou na bilheteria do teatro.
O GATO MALHADO E A ANDORINHA SINHÁ (2022), de Samya Pascotto, Valérie Mesquita e Domitila Gonzalez [Cia. Novelo / iBT]
Em sua primeira incursão no teatro infanto-juvenil, a Cia. Novelo adaptou uma novela escrita pelo baiano Jorge Amado. E ainda que seu público alvo sejam as crianças, não tem uma apresentação na qual um pai ou uma mãe é pego com a respiração pesada ou até enxugando uma lágrima. É uma história que tem inspiração Romeu e Julieta, então você já sabe o final. A trama versa sobre o amor proibido entre um gato e uma andorinha que vivem em um parque, um amor impedido tanto pelo preconceito dos demais animais (que acreditam, sem provas, que o gato é um animal maligno) e de uma lei antiga que dita que os animais só podem casar-se entre suas respectivas espécies.
A discussão, portanto, gira em torno do preconceito. Se no livro de Jorge Amado o amor entre espécies servia de metáfora para as tensões raciais (o gato seria um homem negro e a andorinha, uma mulher branca), a peça da Cia. Novelo opta por fazer uma leitura queer – em especial ao fazer com que seu elenco inteiramente feminino se revezem nos papeis do gato e da andorinha, de modo que uma mesma atriz acaba interpretando ambos os personagens no decorrer do espetáculo.
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é uma peça que não tem medo de ser abertamente política. Seja em sua aproximação com uma representatividade LGBT – quando o narrador da peça, Jorge Amado (Maria Eugenia Machado), refere-se ao público como “meninos, meninas, menines” ou quando duas atrizes dão um beijinho para selar a paixão do gato e da andorinha. Seja em afirmar ser necessário uma revolução para dar fim a uma lei tão rígida e que parece não fazer sentido. A peça caminha para seu final trágico e ainda que Jorge sinta-se incapaz de mudar o desenlace que ele próprio escreveu, a conclusão a que se chega é de que “o mundo só vai prestar quando um gato e uma andorinha puderem se amar”.
Trata-se de um espetáculo encantador que nos captura não só pelo carisma das atrizes, mas principalmente pelo esmero de sua feitura. Sob a direção de Maristela Chelala, a linguagem da peça segue os rumos do teatro de rua e da palhaçaria. A convenção teatral é posta em evidencia, não só no revezamento dos papeis como também em momentos no qual uma corda se transforma na temida cascavel que o gato precisa derrotar ou quando uma luva se transforma na cabeça do senhor andorinha. O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá apresenta o faz de conta na sua melhor forma e nos faz sonhar com um mundo melhor.
O musical infanto-juvenil O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá esteve em cartaz no Sesc Pompeia entre os dias 05 e 26 deste mês. Para mais informações sobre futuras temporadas, acompanhe o perfil de Instagram da Cia. Novelo. O espetáculo está realizando uma turnê pelas cidades do interior do estado de São Paulo durante o mês de agosto, confira a seguir por quais cidades a trupe irá passar:
Votorantim: dia 02 às 14h30; dia 03 às 11h e 15h – na Praça Lecy de Campos.
Mauá: dia 09 às 11h e às 15h30; e dia 10 às 14h30 – no Parque da Juventude.
St. Bárbara do D’Oeste: dia 30 às 15h30; e dia 31 de agosto às 11h e às 15h30 – no Parque dos Ipês.
São Bernado: dia 20 de setembro às 15h30h; e dia 21/set às 11h e às 15h30 - no Parque Municipal Salvador Arena
Quanto custa? É gratuito! Basta estar presente no espaço de apresentação um pouco antes da peça começar.
A LISTA (2020 / 2022), de Gustavo Pinheiro
Esta peça é uma das filhas diretas da pandemia de Covid-19. Seu texto e suas primeiras apresentações online foram desenvolvidos com o intuito de ajudar os profissionais das artes cênicas que ficaram sem trabalho devido à quarentena. A princípio, apenas um trecho da peça foi apresentado – tanto nas experimentações online quanto a partir de 2021, quando passou a ser apresentada em teatros do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, após o avanço da vacinação e a permissão das regras sanitárias. Sua estreia na íntegra ocorreu em São Paulo no ano de 2022, sediada pelo Teatro Renaissance.
O contexto de sua feitura também transborda para a dramaturgia. Na trama, dona Laurita (Lilia Cabral) é uma professora aposentada, que vive sozinha em um apartamento em Copacabana. A quarentena a obrigou a ficar dentro de casa e a aceitar a ajuda de sua vizinha Amanda (Giulia Bertolli), uma cantora lírica, que se ofereceu para fazer as compras para fazer as compras de mercado dos idosos do prédio. A primeira parte da peça retrata um encontro entre as duas na qual a jovem anuncia que não irá mais ajudar Laurita com as compras devido a um relacionamento difícil entre as duas. É claro que, desse último encontro, surge uma nova amizade.
A dramaturgia de Gustavo Pinheiro (também responsável pelo texto de Dois de Nós, peça responsável por reunir Antônio Fagundes e Christiane Torloni nos palcos pela primeira vez em 2024) é básica: estrutura-se em um drama de conversação que coloca dois personagens em polos opostos de determinado debate – algo que já vimos em Chorinho, de Fauzi Arap; Visitando o Sr. Green, de Jeff Baron; e que também veremos em Palhaços (comentada a seguir). A primeira parte do espetáculo serve como um retrato fiel dos hábitos adquiridos por nós durante a quarentena, ainda que não se preste a uma reflexão mais aprofundada sobre aquele período. As piadas funcionam bem com o público (a plateia era majoritariamente composta por adultos 40+ de classe média), principalmente devido a maneira como Lilia Cabral entregava cada tirada.
Aliás, o texto brilha principalmente quando serve de veículo para a atuação de Lilia. Vê-la no palco é uma experiência deliciosa, não apenas pela naturalidade com que ela demonstra sua veia cômica, como também pela maneira como ela varia humor e drama e sua construção de uma personagem esférica: ora carismática, às vezes rude; sábia em seus anos de vida e ainda assim vulnerável a desinformações e preconceitos. Ainda que sua participação seja menor e sirva de escada para Lilia, Giulia Bertolli sustenta bem sua participação na peça.
A nova temporada paulistana de “A Lista” estreou em 27 de junho no Teatro FAAP, onde permanece em cartaz até domingo que vem, 03 de agosto – os ingressos podem ser adquiridos no website do teatro ou na bilheteria (aberta de quarta a domingo a partir das 14h).
PALHAÇOS (cca. 1970), de Timochenco Wehbi [Gabriel Carmona, 2005]
Algumas peças, quando terminam, deixam seus espectadores com uma satisfação típica de quem se esbaldou com um banquete saboroso. É assim que eu descreveria a sensação após assistir a montagem dirigida por Gabriel Carmona de Palhaços, uma peça do paulistano Timochenco Wehbi. Talvez seja essa mesma sensação que tenha disparado o início da trama de Palhaços: após assistir a um espetáculo circense, o vendedor de sapatos Benvindo (Danilo Grangheia) vai até o camarim do palhaço Careta (Dagoberto Feliz) para elogiar a atuação do artista – um relacionamento estranho se desenvolve entre os dois a partir da admiração de Benvindo, ainda que ele não pareça compreender verdadeiramente o trabalho de Careta e do descontentamento que ambos demonstram com suas carreiras.
É interessante reparar na atemporalidade do texto, escrito logo na década de 1970 no contexto dos primeiros anos de AI-5. Isso explica a atmosfera melancólica da obra na qual os sonhos de seus protagonistas parecem ter se esfarelado e ambos sonham sem muita esperança com alguma coisa que os faça escapar da vida que estão levando. Muita coisa ocorreu entre a estreia da montagem dirigida por Gabriel Carmona há 20 anos e os tempos atuais; mais coisas ainda ocorreram entre a escrita do texto e o tempo presente. O Brasil pôde sonhar com futuros melhores e também se encontrou diante da tentativa de outros dois golpes de estado (um realizado com sucesso, o último tentado). Ainda assim, a sensação de impotência diante do trabalho permanece – a meu ver, o funcionamento do mercado de trabalho também parece ter piorado significativamente.
E apesar dessa melancolia, Palhaços é um espetáculo que nos dá a sensação de “quero mais”. A resposta para isso não está apenas nas situações cômicas proporcionadas pelo texto, mas principalmente na execução que os atores fazem dele. Quando ainda estavam ensaiando o espetáculo, a proposta era se valer do texto para promover um estudo sobre palhaçaria e sobre o uso de máscaras para a composição de personagens. Um exemplo claro disso está nas variações de humor e personalidade pelas quais Careta parece passar simplesmente ao remover ou vestir o nariz vermelho de palhaço – isso ocorre porque, na palhaçaria, o nariz é como uma “muleta” (no bom sentido) para que os atores e atrizes possam atingir um estado de atenção e concentração tanto corporal e mental que caracteriza a inocência do palhaço, sua disponibilidade para o mundo e suas características físicas. Com o nariz, Careta é um palhaço amistoso e convidativo; sem ele José (o nome de registro do personagem) é um homem amargurado e autoritário, pronto para massacrar seu admirador. Um exemplo mais sutil está na composição que Danilo Grangheia faz para Benvindo: ainda que não esteja vestindo um nariz, seu corpo alto fica curvado, a potência de sua voz sai mais tímida e suave, seu personagem é inocente – um exemplo de palhaço do tipo Augusto.
Mais do que um exercício de atuação, que parece ter sido afiado com o passar dos 20 anos desde a estreia e das experiências acumuladas da trajetória de cada ator, o que realmente interessa em Palhaços está no jogo entre os atores. A graça está na maneira como se dá o relacionamento: tanto entre seus personagens, quanto na maneira como Dagoberto e Danilo constroem juntos uma escada para ambos subirem – hora um está no topo, na outra a dinâmica se inverte. Tudo isso sem jamais esquecer do público, nos oferecendo tempo para que se possa digerir cada piada e cada mudança de tom do cômico ao trágico.
Que a arte é um veículo para grandes emoções, isso ninguém esquece. É comum esperar que uma peça de teatro (em especial os grandes espetáculos) nos deixe feliz e alegre – no máximo comovido com um amor impedido. Suponho que parte do sucesso de Prima Facie ano passado tenha sido por nos lembrar que o teatro também pode nos deixar baqueados, indignados ou com raiva. Palhaços é uma peça de texto amargo, Timochenco negocia com a tensão entre os personagens e suas vidas medíocres; ao mesmo tempo é uma peça que nos presenteia com o carisma de seus personagens e com a relação entre seus atores. É esse molho agridoce que dá sabor ao espetáculo e satisfaz a fome.
“Palhaços” iniciou sua temporada comemorativa no Galpão do Folias em 11 de junho, onde permanece em cartaz até hoje - os ingressos estão esgotados.
7 GATINHOS (1958), de Nelson Rodrigues [Teatro Oficina, 2025]
Eu tenho a teoria de que as melhores pessoas a montar um Nelson Rodrigues atualmente são as diretoras. Não queria cair em uma questão de “lugar de fala”, mas talvez as mulheres tenham alguma sensibilidade para ir além do choque inicial causado pelas tramas escabrosas (e um tanto machistas, conservadoras) do dramaturgo para evidenciar justamente a estrutura opressora que subjuga as personagens. A teoria não é infundada, ano passado a versão de Helena Ignez de Vestido de Noiva e, este ano, a versão de Monique Gardenberg de Senhora dos Afogados se tornaram um sucesso e trouxeram frescor a obra de Nelson. O mesmo ocorreu com a versão de Joana Medeiros de Os Sete Gatinhos – aliás, justamente a versão que mais torce o dedo na ferida expondo a canalhice do patriarcado e criticando as expectativas impostas pelos papeis de gênero que tentam, sem sucesso, castrar as mulheres.
Se em Senhora dos Afogados uma família margarina é assolada por uma tragédia e, aos poucos se percebe corroída por dentro; em Os 7 Gatinhos, a família já está toda cagada – é sério, tem uma cena inteira dedicada a pixos rabiscados no banheiro da casa da família. Quatro das cinco filhas do casal formado por Noronha (Joana Medeiros) e Aracy (Viviane Clara) são prostitutas – as mais velhas precisam contribuir para o enxoval da caçula Silene (Zizi Yndio do Brasil), uma adolescente interna de um colégio com disciplina rígida e preservada para o casamento. No entanto, a jovem é expulsa sob a acusação de ter matado a paulada uma gata preta que havia recentemente parido sete filhotes.
É interessante reparar como a escalação do elenco também foi levada em conta para elaborar a linguagem do espetáculo. Ao se colocar para interpretar Noronha, o pai opressor daquela família, Joana evidencia por contraste as características que corrompem a masculinidade – o orgulho ferido pelo fracasso no trabalho, o conservadorismo de fachada que se ofende com pichações em um banheiro mas não tem problemas em prostituir sua filhas. E o mesmo ocorre na escalação de um rapaz para interpretar a filha mais nova, distanciando a figura de Silene de uma Lolita e questionando as contradições no tratamento da relação dos adolescentes com sua sexualidade: se fazem vista grossa quando meninos vivenciam sua sexualidade ou cometem atos de violência, por que é exigido que as meninas tenham pudor e sejam bem comportadas?
Nessa dobradinha de Senhora dos Afogados (em cartaz no Oficina aos finais de semana) e Os 7 Gatinhos (em cartaz nas noites de terça e quarta) a própria equipe da segunda peça faz a comparação se colocando como “o lado B” do Oficina. A justificativa para isso seria que enquanto a primeira peça teve um orçamento maior, um elenco formado por veteranas, a direção de uma cineasta e está sendo apresentada “no horário nobre”; a segunda teve um orçamento mais enxuto, está sendo apresentada em dias “alternativos” e teve seu elenco escalado a partir da Universidade Antropófoga, projeto de formação do Oficina. Ainda assim, Os 7 Gatinhos não deve em nada: a direção de Joana explora cada espaço do teatro, transformando-o nas ruas do Rio de Janeiro; não tem medo de mostrar a sujeira do cotidiano e utiliza o vídeo como uma maneira de dar um aspecto noir ao espetáculo. Enquanto isso, o elenco aproveita cada momento em cena e parece se deliciar em interpretar personagens tão canalhas e, por isso, tão fascinantes.
SERVIÇO
Onde? Teatro Oficina (R. Jaceguai, 520 - Bela Vista, SP)
Que dias? Terças e quartas às 20h.
Até quando? 20 de agosto.
Quanto custa? R$70,00 (inteira) e R$35,00 (meia-entrada). Ingressos disponíveis no Sympla.
* A temporada de “Senhora dos Afogados” também segue em cartaz no Teatro Oficina até 01 de setembro de sexta, sábado e segunda às 20h; e domingo às 18h. Os ingressos podem ser adquiridos no Sympla.
SONHO ELÉTRICO (2025), de Marcio Abreu [Cia. Brasileira de Teatro]
As últimas duas peças da Cia. Brasileira de Teatro tentam dar conta da história brasileira recente a partir do mergulho na mente de seus protagonistas – em ambos os casos, artistas, em ambos os casos interpretados por um global. Em AO VIVO Dentro da Cabeça de Alguém (2024), acompanhamos um momento de epifania tido por Renata Sorrah ao dirigir seu carro até um ensaio. Já em Sonho Elétrico acompanhamos uma banda voltando para a casa após um show e, enquanto uma tempestade se forma no horizonte, o grupo encontra diversas situações em seu caminho até que o vocalista (interpretado por Jesuíta Barbosa) é atingido por um raio e entra em coma. Com isso, ambas fazem um movimento de sanfona entre a psiquê de seus protagonistas, as relações interpessoais do/da artista e o cenário sócio-político.
Sonho Elétrico tem como partida o pensamento do neurocientista Sidarta Ribeiro exposto no livro Sonho Manifesto. Aqui, o sonho transita entre o onírico (tanto do coma quanto a partir dos encontros que a banda tem na rua) e um projeto de futuro pautado pela coletividade. As cenas em que o espetáculo sai da esfera lírica para entrar na escala épica incluem o encontro da banda com uma passeata progressista na qual a juventude clama pela paz, por justiça e pelo fim do preconceito; e também pela narração de uma sucessão de fatos políticos que, desde as jornadas de junho em 2013 nos fizeram chegar até aqui (uma cena muito parecida com o momento em que, na peça AO VIVO…, Renata Sorrah relembra, do presente ao passado, os fatos políticos que nos fizeram chegar até aqui). Com isso, Sonho Elétrico tenta materializar um sonho coletivo.
Quando passamos para a esfera lírica, a psiquê em coma do vocalista, testemunhamos uma tentativa de dar conta de como esses mesmos fatos políticos informam o contexto sociológico de um indivíduo e transformam nossa personalidade e destino. Há, por exemplo, uma cena na qual a personagem interpretada por Idylla Silmarovi relata um sonho que teve com seu amigo de banda lembrando de uma infância no interior do país na qual os dois participam de um churrasco familiar regado por muita bebida: ainda crianças, a dupla tenta fazer uma apresentaçãozinha de música para a família, mas é interrompida por uma briga entre os parentes; neste momento, o vocalista experimentava com sua sexualidade e papel de gênero ao apresentar-se com a saia e os saltos da mãe.
As últimas duas peças da Cia. Brasileira tentam dar conta da história brasileira recente. Mais do que um resgate do sonho enquanto um instrumento revolucionário para a elaboração de um futuro melhor, o novo espetáculo parece também apostar na coletividade e na comunhão eufórica de um show de música.
“Sonho Elétrico” iniciou sua temporada no Teatro Antunes Filho, do Sesc Vila Mariana, em 28 de junho, onde permanece em cartaz até 08 de agosto - os ingressos estão esgotados.
Até a próxima! 👋
Você também assistiu alguma dessas peças? Ficou animado para ver alguma delas? Conta pra mim nos comentários! Espero que você tenha gostado das minhas opiniões singelas - nesse caso, lembre-se de deixar seu like. Excepcionalmente, a próxima edição chegará na sua caixa de entrada no dia 01 de setembro (uma segunda-feira).
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