11ª MITsp
Edição Especial 02 | Número 15.1
Oiê! Te desejo boas-vindas a esta edição especial. Nela, irei compartilhar minhas impressões sobre a 11ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que ocorreu de 06 a 15 de março.
A MITsp é um festival que ocorre todo início de março aqui em São Paulo. Sua programação traz peças de teatro, espetáculos de dança e até performances oriundas de diversos países ao redor do globo, além de obras brasileiras. Atividades como oficinas e rodas de conversas com diversos artistas da cena teatral são realizadas durante o festival. A identidade visual da MITsp é idealizada por um artista diferente a cada ano: o designer pernambucano Hélter Pessôa foi o responsável pelo projeto desta edição – aliás, foi ele quem desenhou os fósforos que coloquei na capa desta edição das Bacantes.
O jornalista Celso Curi, homem imprescindível para o jornalismo cultural de artes cênicas e para a comunidade LGBT brasileira, foi o homenageado da cerimônia de abertura – ele foi aplaudido de pé por seus pares. O evento teria passado como uma formalidade festiva, não fosse alguns protestos e questionamentos proferidos por membros da plateia. Após Luiz Galina, Diretor Regional do Sesc SP, ter terminado seu discurso manifestaram: “Julio Pompeu presente!”, o funcionário da unidade de Pompéia morreu por suicídio durante o horário de trabalho no final de semana anterior; seu nome foi lembrado pelo festival durante a seção “In Memorian”.
Já o secretário municipal de cultura Totó Parente ouviu questionamentos: sendo perguntado sobre o atraso no lançamento de editais, além do desalojamento do Teatro de Contêiner e a demolição do Teatro Vento Forte (ambos promovidos pela Prefeitura). Em resposta, o secretário afirmou que os editais seriam lançados em março e reiterou o compromisso feito na 10ª MITsp de não cometer atrasos no lançamento; ele afirmou que ano passado a prefeitura abriu cinco teatros; mas não se pronunciou quanto a situação da transferência do Contêiner para o novo terreno. O que os presentes ainda não sabiam era que em 05 de fevereiro havia sido assinado o decreto nº 64.951 que desapropria imóveis nos distritos Belém, Bom Retiro e Pari para a implantação do “Projeto Urbano Sul” e que em uma dessas áreas está a sede do Teatro Popular União e Olho Vivo, grupo com seis décadas de atuação e há 42 anos estabelecido na R. Newton Prado - se soubessem, as vaias ao final do discurso de Totó teriam sido ainda mais incisivas.
É inegável que o grande chamariz desta edição foi a presença de Édouard Louis, anunciada logo na primeira semana do ano e já com a informação de que o próprio autor interpretaria um monólogo que adapta um de seus romances: Quem Matou meu Pai. A adaptação de História da Violência, por sua vez, foi a escolhida para ser o espetáculo de abertura da edição. Em seus 32 anos, o escritor francês se tornou uma febre aqui no Brasil ao participar da 22ª Flip e por ter concedido uma entrevista para o programa Roda Viva naquele ano. Os ingressos de ambas as peças foram disputados, enquanto a palestra “Encontro com Édouard Louis” teve seus ingressos gratuitos esgotados rapidamente; já o “Diálogo entre Thomas Ostermeier e Édouard Louis” não chegou a lotar a plateia do Teatro Paulo Autran. É interessante reparar que enquanto o Encontro tinha no público a presença de admiradores e pessoas mais próximas ao universo da literatura, o Diálogo já tinha a presença de artistas do meio teatral – o público das peças parecia ser misto. Durante sua participação no festival, Édouard se mostrou bastante receptivo com seus admiradores, sempre disposto a autografar livros depois das apresentações e palestras e até devolver um pouco do afeto que recebia.
Observando a programação de forma panorâmica, tivemos seis espetáculos internacionais apresentados e 14 espetáculos brasileiros. Ainda que algumas obras dialogassem com proposições da performance, a programação internacional trouxe apenas peças de teatro. Já a programação nacional apresentava teatro, dança e performance.
Considerando a raridade de espetáculos estrangeiros serem apresentados no Brasil fora do contexto de festivais, optei por priorizar as peças da mostra internacional. As obras desta edição foram quase exclusivamente francófonas: das seis, apenas uma foi apresentada em alemão e outra em árabe. Em termos geográficos, a América Latina, presente na edição anterior com um espetáculo argentino, não foi representada nesta edição; porém, desta vez, recebemos um espetáculo congolês e uma abertura de processo cujo artista é de origem palestina.
IM HERZEN DER GEWALT (2018), de Thomas Ostermeier, Florian Borchmeyer e Édouard Louis [Schaubühne/Alemanha]
Fruto de uma parceria entre o escritor francês e o diretor de teatro alemão Thomas Ostermeier, História da Violência adapta o segundo livro de Édouard Louis. A trama tem como ponto de partida o estupro sofrido pelo escritor durante um encontro sexual (a princípio, consentido) com um homem de origem cabila, uma etnia da Argélia. Acuado, Eddy (interpretado por Laurenz Laufenberg), sai de Paris para passar uns dias no interior da França na companhia da irmã (Alina Stiegler), que questiona o relato do ocorrido feito pelo irmão.
A psicologia parte do pressuposto de que, para lidar com um trauma, é necessário falar sobre ele – em alguma medida compartilhá-lo com um interlocutor. Diversos planos de relato se mesclam no decorrer da história. Valendo-se do uso de microfones de mão, Eddy conta para o público sua história. Na casa da irmã, eles discutem o ocorrido. Sobrepostos a esses dois planos, também estão a interlocução de Eddy com os médicos e os policiais que o atendem poucas horas após ele ter sofrido a violência.
O debate proposto tanto pela trama quanto pela encenação está nas implicações sociais do estupro e da violência a partir do momento em que estes passam a ser narrados. Enquanto o relacionamento com a irmã moldura as tensões entre classes sociais e a visão que as mulheres têm da vivência sob o patriarcado, os policiais de saída já implicam o jovem cabila Reda (Renato Schuch) como um homem perigoso sem se preocupar com a especificidade de sua origem, o chamando genericamente de “árabe”; paralelamente Eddy tenta racionalizar as implicações de denunciar Reda e o suposto descompasso de suas respectivas classes sociais. Assim, o episódio se transforma de acordo com as lentes de quem faz as perguntas para o protagonista, de acordo com a experiência social de cada personagem.
A encenação amplifica a existência desses narradores não apenas por meio dos questionamentos e relatos feitos ao microfone, como também valendo-se de um telão branco que ora projeta imagens para compor o cenário, ora projeta gravações feitas ao vivo pelo próprio elenco – como uma janela para o olhar de quem segura o dispositivo, deixando claro que os fatos são sempre mediados por um ponto de vista específico. O uso do microfone de mão para os momentos de relato ao público, contrasta os momentos cotidianos nos quais os atores projetam suas vozes valendo-se apenas do gogó e de uma atuação naturalista; como se tentasse encontrar a linha que separaria o debate público do privado. Entretanto, fica a impressão que não há muito critério em qual recurso (vídeo ou microfone) será usado por quem e em qual momento cênico.
História da Violência parte do entendimento que seus perpetradores são essencialmente os homens. A violência tem identidade e ela é masculina. Na trama, dois homens tentam se relacionar de forma afetuosa devido a um desejo que sentem pelo outro, mas fracassam quando suas realidades sociais se chocam. O peso das normas patriarcais, a xenofobia e a opressão vinda da estrutura de classes aparecem como os dispositivos que pressionam as relações sociais até a violência explodir. Entretanto, o assombro de Eddy está em lembrar que ele mesmo (também de origem pobre, interiorana e de família operária), está mais próximo de seu agressor do que Reda foi capaz de perceber.
QUI A TUÉ MON PÈRE (2020), de Édouard Louis [Schaubühne/Alemanha]
O título deste monólogo parece indicar uma história do gênero de mistério: um romance de detetive no qual se buscam pistas e provas para um assassinato tenebroso. Ainda que Édouard Louis, seu autor e intérprete, aponte eventos factuais e materiais que levaram ao adoecimento de seu pai (e, consequentemente, sua morte), a investigação se debruça mais sobre como a performance da masculinidade normativa impactava a vida de seu progenitor ao mesmo tempo em que reverberava num garotinho que, aos poucos, se percebe diferente dos demais.
Assim como sua participação no festival, a presença de Édouard Louis como ator do monólogo também não passa batida. Ainda que não tenha formação enquanto ator, ele sustenta bem os 90 minutos de peça demonstrando calma e naturalidade – em alguns momentos, é visível como ele está curtindo estar em cena. Bem ou mal, a presença do escritor reforça o caráter pessoal da narrativa. Há quem critique o trabalho de Édouard por ser muito pautado por experiências pessoais. Ao mesmo tempo, sua presença é o que parece justificar a empreitada.
Quem matou meu pai promove um retorno à infância; uma infância na qual um acerto de contas se faz necessário. Ao se defrontar com a morte do pai e o como aquele homem teve sua visão de mundo mudada ao final da vida, ele passa a compreendê-lo melhor – é mais uma busca pelo outro e menos sobre si. Seu confessional ecoa nas lembranças de homens gays que possam estar na plateia.
Por também ser dirigida por Thomas Ostermeier, é possível entender História da Violência e Quem matou meu pai como um díptico teatral. Não só devido ao material original serem livros de um mesmo escritor, como também porque as escolhas estéticas entre uma e outra são similares. Aqui, estas escolhas parecem mais afinadas e amadurecidas. O uso de microfone é constante, ressaltando o caráter confessional da montagem; enquanto as projeções trazem imagens de arquivo da infância de Édouard e de seu pai. Os momentos em que o Édouard irrompe em números de dança refletem um episódio da infância na qual ele preparou uma apresentação caseira para agradar o pai – são trechos que trazem certo deslumbramento para o espetáculo e servem de ponto de contato com a plateia.
DE CE CÔTÉ (2021), de Dieudonné Niangouna [Les Bruits de la Rue/Congo]
Biografia e ficção se espelham em Do Lado de Cá. Seu autor, diretor e intérprete decidiu iniciar sua trajetória no teatro quando esta forma de arte foi proibida pelo regime autoritário de Mobutu Sese Seko. Em meio a uma guerra civil contra o regime, Dieudonné fundou sua companhia Les Bruits de la Rue (ou, “os barulhos da rua”). Em 2015, o artista precisou se refugiar na França após ter sido condenado à morte por ter criticado as eleições fraudulentas do Congo.
Como em um espelho de sua vida, a trama deste monólogo gira em torno da vida de Dido, um ator que precisou fugir para a Europa após bombas explodirem durante uma de suas apresentações teatrais. Considerado um inimigo público em seu país natal, o personagem é atormentado por seus fantasmas, sentindo o peso da culpa e do trauma.
Em um misto de espetáculo e número de recitação, ele versa sobre o próprio fazer teatral, investigando o teor político da arte. O personagem vive entre manter a tradição de seu país de origem ou deixá-la para trás na intenção de construir algo novo em seu exílio. Do Lado de Cá se vale de uma simplicidade de recursos cênicos para priorizar a palavra, tida como uma das matérias primas do teatro. Sua execução é precisa: durante longos minutos ele mantém um tom estável para depois disparar suas angústias; ele move seu corpo com uma limpeza do gesto típica de um exercício de máscara neutra. Ao mesmo tempo que essa concisão valoriza o teor de manifesto da peça, ela também faz com que o espetáculo corra o risco de ficar enfadonho.
LA LETTRE (2025), de Milo Rau [Festival D’Avignon/França]
Eu adoro quando saio do teatro preenchido pela alegria de ter assistido algo divertido e que não se leva tão a sério ao mesmo tempo em que não se acovarda em versar sobre temas mais profundos.
Em A Carta dois jovens atores decidem que vão montar uma peça curta para o programa “Piècce Commune” do Festival d’Avignon após se conhecerem em um teste de elenco, para o qual eles não foram selecionados. Arne de Tremerie, quer montar cenas de A Gaivota, na qual ele interpretaria Treplev porque sua avó Nina, uma radialista, sonhava em ser atriz e atuar nesta peça. Olga Mouak quer interpretar cenas da vida de Joana D’Arc porque sua avó possuía uma ligação profunda com essa figura histórica francesa. Então eles passam a mesclar cenas de ambas histórias, estabelecendo pontos de contato entre estas fábulas a partir de suas memórias familiares, sua vida profissional nas artes cênicas e o avanço da extrema-direita na política.
A peça conquista o público ao acolher sua presença. Os atores fazem piada sobre como queriam estar apresentando em um grande teatro, mas acabaram em um centro cultural na Avenida Paulista; perguntam para nós se conhecemos a trama de A Gaivota e se gostaríamos de ouvir um breve resumo; convidam pessoas da plateia para participar das cenas vestindo adereços dos personagens e lendo os textos (em português); os atores até arriscam algumas frases em nossa língua.
Com muito humor, carisma e charme, a dupla nos convida a brincar junto com eles. Este clima acolhedor e descontraído cria um terreno fértil para versar sobre temas mais profundos. Assim, passam a discutir sobre memória; abandono familiar; conflitos geracionais; a sensação de inadequação; o retorno do fascismo na Europa; e os sistemas políticos reacionários.
Sob a direção de Milo Rau, a peça se vale de poucos recursos cênicos: alguns objetos de palco e uma escolha precisa de spots de luz. Isso porque o Pièces Commune pede por espetáculos que sejam elaborados para serem apresentados em periferias e que sejam de fácil circulação. A proposta tanto do programa como de A Carta está em pensar formas de fazer teatro popular. Por isso, ao mesmo tempo em que a peça celebra o fazer teatral e nos diverte com seus personagens, ela também investiga como viver em um mundo em conflito crescente e como lidar com aqueles que estão próximos de nós.
SURVEILLÉE ET PUNIE (2024), de Safia Nolin e Jean-Philippe Baril Guérard [Théâtre Prospero/Canadá]
Talvez mais um show que uma peça, este espetáculo foi elaborado a partir de comentários direcionados à cantora e compositora Safia Nolin. Em cena, uma mulher gorda senta-se em um tablado forrado de crochês coloridos e observa um coro de mascarados cantar os comentários maldosos feitos à Safia. Vigiada e Punida se equilibra nessa linha tênue entre a sofisticação da música de coral e os comentários asquerosos (que vão da gordofobia até a xenofobia, passando por misoginia, lesbofobia e transfobia); uma linha tênue entre a graça que vem desse contraste (existe algo de espirituoso na proposta) e a indignação de testemunhar tais comentários sendo dirigidos à alguém.
Os comentários variam de bobagens que seriam ditas por um garoto da quinta série até crimes de ódio. A princípio, o espetáculo fala sobre a cultura dos “haters” – que sempre existiu, mas ganhou força com as redes sociais, cujos algoritmos agrupam este tipo de comportamento e o amplificam por ser algo que gera engajamento e permanência nas plataformas. Nessa sopa de anônimos que são os haters é possível encontrar gente intolerante e reacionária; gente que apenas se diverte em falar mal de qualquer coisa (independente se realmente acredita naquilo ou não); e até gente que se vale de provocações porque, na verdade, acredita que essa seja a maneira mais eficiente de chamar atenção de seu alvo – independente das motivações, nota-se um relacionamento parassocial bem esquisito.
Vigiada e Punida não tem muito para onde ir. Seu ponto é entregue muito rápido, uma vez que sua mensagem está contida no próprio formato da proposta. Isso até o momento em que surge uma figura coberta por trapos (parece um monstro do pântano) que passa a entreter a mulher. A mulher se levanta, começa a remover os trapos da figura, revelando a própria Safia Nolin. A cantora, então, pega um violão e passa a cantar uma balada de amor (bem melancólica) enquanto a mulher a admira como uma amante que recebe uma serenata.
Enquanto o coro volta a cantar, Safia e Katia Lévesque (a tal mulher) se banham, se alimentam, cuidam uma da outra. Elas até que são parecidas, têm cabelos cacheados que caem sobre os ombros e braços cobertos por tatuagens – pode-se considerar a possibilidade de serem um espelho uma da outra. Juntas, passam por uma jornada de aceitação de si mesmas e de cura. Enquanto Safia demonstra mais timidez e comedimento, Katia é mais debochada e confiante.
É um espetáculo bastante literal. Muito direto no que se propõe a dizer e no tema em que se propõe a versar. Ainda assim, é bonito reparar como Vigiada e Punida parece propor que o amor e o cuidado – sejam eles vindo de si mesmos, sejam eles vindos de outra pessoa – são as melhores ferramentas que temos quando a sociedade ao nosso redor parece estar contra nós.
(2025–) ثلاثة فصول وجسد, de Mohammed Al Qudwa [Théâtre Dijon Bourgogne/França]
Ao contrário dos espetáculos anteriores, este monólogo foi apresentado como uma abertura de processo. O artista e escritor palestino Mohammed Al Qudwa foi convidado pela MITsp para dar continuidade a uma residência iniciada no programa “Sawa Sawa” do Instituto Francês de Jerusalém, destinado a fomentar o desenvolvimento da cultura palestina por meio de bolsas concedidas a palestinos residentes tanto na França como em sua terra natal.
Também batizada em francês como Trois Saisons et un Corps, a peça versa sobre o impacto das cinco guerras que atravessaram a vida do jovem em Gaza. Um estudante aplicado, karateca e admirador da Física tem sua vida virada do avesso por bombas que caem perto de onde mora, pela necessidade de fugas desesperadas. Mohammed se vale da poesia para tentar dar palavras ao que parece ser impossível de relatar e na tentativa de ter esperança ainda que as condições apontem o contrário.
O genocídio que ocorre agora em Gaza tem como característica peculiar o de ser o mais amplamente disseminado pelas mídias. Nem tanto em veículos impressos ou televisivos, mas especialmente por meio de vídeos e relatos que circulam pelas redes – produzidos tanto pelos cidadãos palestinos quanto pelos algozes de origem israelense. É fácil sentir empatia pelo povo, porém as telas nos distanciam da realidade e nos colocam em uma posição estranha de indignação e impotência.
Sob direção da brasileira Martha Kiss Perrone, a força de Três Estações e um Corpo está na presença. A união entre artista e espectadores é o que nos permite compreender verdadeiramente o que está acontecendo em Gaza e como seus habitantes se sentem sobre isso. Paralelamente, a solidão de Mohammed no palco também evoca a solidão do artista em sua vida cotidiana: ao longo da performance, ele narra a morte de amigos e familiares e a tentativa de se encontrar no mundo sem a presença de pessoas tão importantes.
Valendo-se de poucos recursos cênicos, a performance nos convida a imaginar: há um som constante que evoca terremotos, edifícios ruindo, o avanço de tanques de guerra ou tudo isso junto – algo que nos provoca a sensação de inquietação e ansiedade. Ainda assim, o jovem também versa sobre a vida que insiste em aparecer: os livros que ele gosta de ler, a mãe que lhe pergunta se ele lembrou de tirar o frango da geladeira e os gatos da família andando pelo apartamento.
🥢Cidade, Amizades e Eu
Em conversas após os espetáculos, disseram que a palavra mais repetida na MITsp desse ano foi “Eu”. É bem verdade: não só a presença de Édouard Louis atesta para isso como também os próprios textos curatoriais da mostra indicavam essa predileção pela autoficção.
Uma amizade que fiz neste contexto chegou a comentar que acharia Vigiada e Punida chato não fosse o dado biográfico. E realmente me questiono se a proposta de Safia Nolin funcionaria tão bem se fosse outra intérprete em seu lugar ou se o texto tivesse sido escrito sem um material prévio – o mesmo questionamento, inclusive, vale para Quem Matou meu Pai. Por outro lado, Três Estações e um Corpo não poderia ser desempenhado por outro artista que não um de origem palestina, como Mohammed: apenas alguém que passou a vida em um país sob ataque constante seria capaz de nos fazer caminhar com seus sapatos.
Essa saturação de obras de autoficção e em primeira pessoa não deixa de ser um sinal dos tempos. Além de já estarem dando sinais de cansaço, a autoficção não se empresta ao teatro tão bem: o gênero dramático é de origem dialética (um beijo, Szondi) e os diálogos são o veículo ideal para investigar as relações interpessoais – além do mais, o teatro é essencialmente uma arte que se produz coletivamente.
Ao mesmo tempo, acho curioso como, de alguma maneira, todos os espetáculos internacionais se direcionavam ao outro. Enquanto em Do Lado de Cá e Três Estações… os artistas precisavam lidar com os seus fantasmas e a solidão; em Quem Matou meu Pai, Édouard buscava compreender quem foi aquele homem. Eddy, por sua vez, vai até a irmã em busca de conforto e recebe contrapontos ao seu relato na trama de História da Violência. Em A Carta dois artistas se uniam e pediam a ajuda da plateia para enfim encenar a peça de seus sonhos. E em Vigiada e Punida, Safia encontrava em uma mulher semelhante a ela um possível processo de cura. A todo o tempo, a companhia de outra pessoa se apresentava como um dado essencial na vida daquelas figuras.
Eis aí a função principal do teatro: a aproximação entre as pessoas. O fenômeno teatral não se realiza sem atores no palco ou espectadores na plateia. Nestes nove dias dedicados à MITsp, cheguei a fazer amizade com figurinhas repetidas que assistiram aos mesmos espetáculos que eu. Tão divertido quanto ver as peças, era poder trocar impressões no final de cada uma ou conhecer aquelas pessoas antes de entrarmos no auditório. A importância de festivais como a MITsp não está somente em apresentar novidades e o que se tem feito ao redor do mundo, como também está na criação de uma comunidade que compartilha um interesse em comum.
Durante estes nove dias intensos minha relação com a cidade de São Paulo mudou. Ainda que eu seja frequentador das unidades do Sesc e de teatros como o Sérgio Cardoso e o Liberdade, o trajeto para estes locais e minha presença neles parecia reconfigurar aqueles ambientes. Como se existisse uma outra São Paulo no decorrer do festival: mais convidativa, festiva, um lugar de permanência. A importância de festivais como a MITsp está também em trocar as lentes que utilizamos para enxergar uma cidade: conhecer outros cantos, idealizar espaços de convivência, entender o que precisa ser feito para melhorá-la e voltar a enxergar beleza em algo já banalizado.
Até a próxima! 👋
Espero que você tenha gostado desta edição especial – nesse caso, lembre-se de deixar seu like. Se você quer acompanhar a próxima edição da MITsp ano que vem, lembre-se de acompanhar o website e as redes sociais do festival. A edição tradicional do mês de março chegará na sua caixa de entrada no próximo domingo, dia 29.
Enquanto isso, que tal me seguir nas redes sociais? Instagram | Bluesky | LinkedIn
E não deixe de seguir a Revista Galérica também, poxa… Instagram | LinkedIn | Newsletter “Agenda Cultural”











👏🏻👏🏻