Setembro de 2025
Número 09
Oiê! Tudo bem? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Apenas o Fim do Mundo, Brenda Lee e o Palácio das Princesas, A Grande Magia, Dois Papas e o dueto de Amir Haddad e Renato Borghi. Nesta edição, também vou trazer para você uma dica de leitura.
APENAS O FIM DO MUNDO (1990), de Jean-Luc Lagarce [Magiluth, 2019]
A escolha da encenação realizada pelo grupo recifense Magiluth de Apenas o Fim do Mundo como peça inaugural do centro cultural do Instituto Brasileiro de Teatro (iBT) foi, sem dúvida, acertada. O iBT foi fundado em 2022 com a proposta de fomentar o teatro do país, o fato de sua curadoria ter convidado um grupo recifense, fora do eixo Rio-SP, também demonstra seu compromisso com a pluralidade regional e descentralizadora do projeto. Além disso, sob a direção de Giovana Soar e Luiz Fernando Marques Lubi, o espetáculo é realizado de forma itinerante, percorrendo todos os cantos do saguão do edifício sem se restringir apenas ao espaço que foi delimitado como sendo o “Palco Praça” do complexo. Assim, espectadores tiveram a oportunidade de explorar cada ambiente tendo um drama familiar como guia.
Na trama, Luiz (interpretado por Pedro Wagner) percebe que sua morte está chegando após ter contraído o vírus do HIV e estar desenvolvendo Aids. Assim, ele decide retornar para a casa onde sua mãe (Erivaldo Oliveira) vive com a filha mais nova, Susana (Bruno Parmera), e onde ele também reencontra seu irmão Antônio (Mario Sérgio Cabral) e a cunhada Catarina (Giordano Castro). Este encontro acaba funcionando como uma espécie de acerto de contas onde cada membro da família pode enfim expressar o sentimento que a ausência de Luiz, o filho mais velho, deixou em suas vidas – uma lacuna difícil de ser preenchida para a mãe e a irmã, e um espaço difícil de ser ocupado pelo irmão enquanto o “homem da casa”. O problema é que ao longo da peça, todas as personagens parecem estar mais interessadas em falar sobre si mesmas do que tentar entender o que trouxe Luiz de volta; ele, por sua vez, se percebe incapaz de revelar a sua nova condição.
O caráter itinerante da montagem tem, é claro, seus prós e contras. De um lado, a possibilidade de explorar o edifício; a novidade que vem de cada mudança de ambiente e as relações que cada porta ou sacada pode estabelecer entre os personagens – por exemplo na cena em que a família toma um café no jardim: enquanto a mãe e Catarina ficam no chão junto com a plateia, os três filhos são enquadrados cada um por uma sacada e sem jamais descer para unirem-se a elas.
Por outro lado, as mudanças constantes de espaço impõem alguns desafios. Nem todos os ambientes possuem o tamanho adequado para a lotação máxima proposta pela produção (130 pessoas): a mesma cena no jardim deixava o público apertado ou sem boa visibilidade a depender de onde cada espectador se encontrava. Ainda que a maior parte dos ambientes oferecesse cadeiras para sentar-se a locomoção em si se mostrava um desafio em maior ou menor grau para idosos ou PCDs, algumas cenas precisavam ser vistas de pé. Por fim, o tempo de locomoção faz com que cada início de cena pareça um novo início de peça, exigindo que o público volte ao seu estado de concentração e que o elenco crie novamente do zero a voltagem do espetáculo – somado a este último fator, tem-se o fato de que a dramaturgia de Lagarce encerra a cena no instante em que elas atingem seu ápice emocional ou de tensão; no momento que ele te fisga, ele te larga.
O elenco do grupo é fenomenal. É interessante reparar como dos cinco atores, três estão interpretando mulheres: a caracterização em nada remete a uma “mulheridade”, eles não vestem saias ou peruca, não rasparam a barba – há apenas uma certa delicadeza nos gestos de Erivaldo e Giordano e ocasionalmente um tom de voz suavizado; aliás Giordano aproveita sua voz grave para produzir momentos cômicos quando sua personagem repreende o marido. A interpretação desse trio em específico é interessante justamente porque mais do que representar um gênero, eles optaram por representar personagens. Mario Sérgio constrói um irmão bastante masculinizado, sem jamais transformar seu personagem num babaca – o que ajuda a simpatizar com sua situação quando as mulheres constantemente o descrevem como rude ou bruto. Já a atuação de Pedro é mais sutil e introspectiva, reagindo de maneira contida ao que seus familiares têm a lhe dizer e mostrando sua vivacidade apenas quando o protagonista parece estar sozinho com os espectadores.
“Apenas o Fim do Mundo” fez apresentações especiais no saguão do iBT nos dias 29/ago, 30/ago, 31/ago, 01/set, 05/set, 06/set, 07/set e 08/set.
BRENDA LEE E O PALÁCIO DAS PRINCESAS (2021/2022), de Fernanda Maia [Núcleo Experimental]
Logo no início da primeira temporada, ainda no teatro do Núcleo Experimental, escrevi uma reportagem apresentando o musical Brenda Lee e o Palácio das Princesas e entrevistei a dramaturga Fernanda Maia para conhecer em profundidade o processo de elaboração do espetáculo. Por isso, acredito que publicar ainda outro texto descrevendo e analisando o musical seria repetitivo. Assim, a proposta aqui é de pontuar as transformações pelas quais o espetáculo passou no decorrer desses quatro anos e, principalmente, analisar seu impacto na cena musical paulistana.
O musical surgiu como irmã mais nova de Lembro todo dia de você: durante uma das temporadas Zuleica Mesquita, que trabalhou com Brenda Lee, foi assistir a uma das apresentações. No final, ela falou para Fernanda Maia que alguém precisava contar a história de Brenda em um musical e essa pessoa deveria ser Fernanda. Ainda que a dramaturga tivesse reticências em falar sobre uma figura histórica da qual ela não compartilhasse a mesma vivência, Fernanda sentiu que aquilo era um chamado. Seu processo de pesquisa envolveu ler sobre a transgeneridade, buscando livros escritos por pessoas trans, pesquisando relatos de mulheres trans e também entrevistando quem conheceu Brenda, além de procurar por outros materiais publicados sobre ela.
O texto ficou efetivamente pronto na sala de ensaio, com a colaboração das atrizes do elenco – durante este diálogo Fernanda sintonizou sua dramaturgia para que tanto pessoas trans na plateia se sentissem representadas quanto para que pessoas cisgênero pudessem compreender melhor aquela vivência. O espetáculo foi apresentado no formato audiovisual pela primeira vez em outubro de 2021 devido às limitações impostas pela quarentena e seu elenco era composto por: Ambrosia (interpretando Isabelle), June Weimar (Blanche), Marina Mathey (Cínthia), Olivia Lopes (Raíssa), Tyller Antunes (Ariela) e Verónica Valenttino no papel titular – Fábio Redkowicz como participação especial no papel do médico Pedro. A estreia nos palcos ocorreu no ano seguinte com Leona Jhovs assumindo o papel de Blanche, uma vez que June foi morar no exterior.
Desde então o espetáculo foi um sucesso retumbante, tendo recebido o prêmio de Melhor Peça da APCA, o prêmio Shell de Melhor Atriz para Verónica e os prêmios Bibi Ferreira de Melhor Roteiro, Atriz Revelação (Verónica) e Atriz Coadjuvante (Marina Mathey). Além disso, a cada temporada o espetáculo ganha cada vez mais espectadores devido ao boca-a-boca e a passagem por diferentes teatros.
Ao longo desses quatro anos, o elenco passou por transformações: Marina Mathey deixou o papel de Cínthia, passando o bastão para Olívia Lopes – quem assumiu o papel de Raíssa foi Andrea Rosa Sá. Ambrosia foi estudar na Espanha, deixando o papel de Isabelle para Rafa Bebiano – atualmente quem interpreta Isabelle é Elix. Havia a intenção que a banda também fosse formada exclusivamente por musicistas trans, porém, com a quarentena, o Núcleo julgou que seria mais fácil trazer seus colaboradores mais frequentes – quando o musical estreou nos palcos, Juma Passa assumiu o baixo e ainda que a banda não seja formada apenas por pessoas trans sua composição é diversa. Por mais que o personagem de Pedro seja uma participação especial, tenha sido criado a partir de duas figuras históricas e Fábio Redkowicz (além de bom ator) represente um amuleto de sorte para o Núcleo, não deixo de pensar que poderia ser interessante ter um homem trans defendendo o papel – o que faria do elenco de Brenda Lee… formado exclusivamente por pessoas trans.
Mais do que um musical de sucesso de público, crítica e premiações, Brenda Lee representou uma mudança significativa não apenas na vida de seus integrantes como também na cena musical paulistana. O Núcleo Experimental passou a colaborar cada vez mais com artistas trans, podemos trazer o exemplo de Gabriel Lodi que esteve presente em Um Porre de Shakespeare (2024) e colaborou com Zé Henrique de Paula em A Herança (2023) – Gabriel, por exemplo, poderia assumir o papel do médico. Também é possível citar a parceria de Zé Henrique com a figurinista Ùga agÚ, quem assina o figurino desta nova temporada e cujo trabalho também pôde ser admirado em Um Porre de Shakespeare e Codinome Daniel.
Antes de protagonizar o musical, Verónica Valenttino era membro-fundadora da banda Verónica Decide Morrer e atuava no coletivo As Travestidas, dirigido por Silvério Pereira. Desde sua participação no musical, Verónica tem firmado seu espaço na cena teatral paulista participando de grandes produções como Priscilla, a Rainha do Deserto (2024) no papel de Bernadette Bassanger, além do coro de Avenida Paulista (2025), de Felipe Hirsch. Verónica também pode ser vista em peças como Teoria King Kong (2023), sob a direção de Yara de Novaes, e Delírio Macbeth (2024). Verónica atualmente também faz parte do elenco da série Mascaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, da HBO.
O musical foi responsável pelo retorno de Marina Mathey aos palcos. Desde então, ela nunca mais o deixou. A atriz fez parte do elenco de Mundaréu de Mim (2023), de Vitor Rocha, interpretando a costureira Genoveva ao lado de Luiza Porto e Juliana Linhares – seu número musical falava sobre as fantasias como maneira de explorar quem somos, algo que na voz de Marina se tornava uma alegoria trans. Marina e Verónica se reencontraram no show Divina Valéria 80 - o show biográfico (2024), na qual interpretavam a cantora ao lado da própria Valéria. Neste ano, ela esteve no elenco de João (2025), da Cia. da Revista, e assumiu o protagonismo em Mata teu Pai (2017), de Grace Passô, na versão ópera balada (papel antes interpretado por Assucena).
Desde os primórdios do teatro musical, as atrizes trans estiveram presentes. Porém em um circuito alternativo, apresentando-se em boates (como a Medieval, citada na peça) em shows de transformistas. Talvez esta transformação já estivesse em vias de acontecer, mas deve-se levar em conta o sucesso de Brenda Lee… como um dos responsáveis por trazer estas atrizes ao teatro musical comercial. Ainda que timidamente, desde 2022 a cena passou a trazer mais atrizes trans ainda como parte do coro: no início deste ano, a coreógrafa e atriz Rafa L. pôde ser vista no coro do musical Uma Coisa Engraçada Aconteceu a Caminho do Fórum; atualmente, além de atuar como swing, Rafa L. coreografou a primeira montagem brasileira de Dreamgirls. Também podemos citar as presenças de Valéria Barcellos e Diva Menner em papéis de antagonistas: enquanto Valéria interpretou a Enfermeira/Rainha de Copas em Alice de Cor e Salteado; Diva ganhou destaque ao interpretar Madame Morrible na montagem brasileira de Wicked em 2023, além de interpretar Joice Heth em Barnum – O Rei do Show no ano anterior.
“Brenda Lee e o Palácio das Princesas” iniciou sua temporada no Teatro Vivo no dia 05 de agosto, onde permanece em cartaz até 01 de outubro - ainda há alguns ingressos disponíveis para os dias 29/set, 30/set e 01/out disponíveis no Sympla. A versão audiovisual do espetáculo está disponível no canal de YouTube do Núcleo. A publicação do texto da peça em livro pode ser adquirida no website da editora Ercolano.
A GRANDE MAGIA (1948), de Eduardo de Filippo [Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, 2025]
A Cia. Elevador de Teatro Panorâmico elegeu o texto do dramaturgo italiano para celebrar seus 25 anos de trajetória uma vez que seu diretor artístico, Marcelo Lazzaratto, desejava há muitos anos levar A Grande Magia aos palcos – até então, a peça não havia ganhado uma montagem profissional no país. Eduardo de Filippo é considerado um dos artistas de teatro mais importantes da Itália no século passado, ele utilizava o humor para retratar as crises sociais compondo comédias agridoces sobre a vida familiar napolitana, especialmente após a Segunda Guerra Mundial.
Elaborada para ser encenada pela companhia de Eduardo (na qual ele também atuava e dirigia), a trama se inicia em um hotel de veraneio no qual os hóspedes esperam com grande expectativa a chegada do mágico Otto Marvuglia (Chico Carvalho) ao mesmo tempo em que se deliciam em fofocar sobre o casal Marta (Larissa Garcia) e Calogero di Spelta (Pedro Haddad) – afinal, fica evidente para todos, menos o marido, que a jovem está de trelelê com o fotógrafo Mariano D’Albino (Fernando Vitor). Durante um truque de mágica, a jovem se voluntaria e aproveita a oportunidade para fugir com seu amante; para safar sua reputação, Otto convence Calogero de que a esposa está dentro de uma pequena caixa de madeira: se ele abre a caixa, ele assume que é corno; se a mantém fechada, mantém-se fiel ao seu ceticismo. Aos poucos, Calogero passa a questionar a realidade e a viver em um mundo de ilusões.
A Grande Magia foi escrita no contexto logo após a Segunda Guerra, quando a Itália ainda sofria suas consequências. Naquele período, os espectadores napolitanos esperavam por um espetáculo que os acalentasse e distraísse da realidade dura e, no entanto, De Filippo optou por levá-los a refletir sobre este sentimento. Com muito humor e certa melancolia, a peça assume que precisamos de algum tipo de ilusão (ou, talvez sonhos) para seguirmos adiante com a vida, ao mesmo tempo em que alerta para o perigo de manipulações e promessas boas demais para serem verdade. A arte se mostra tanto uma ferramenta de alerta como de alienação. Ainda que escrita há três quartos de século, suas temáticas ainda ecoam na realidade brasileira: onde um presidente é eleito com a promessa de “acabar com isso aí”; na qual coachs ensinam aos berros como homens podem ser mais másculos e enriquecer de maneira fácil; e ao mesmo tempo, na qual ver um indígena, uma catadora, um metalúrgico, um jovem PCD e LGBT, um garotinho preto e uma vira-lata chamada Resistência subindo a Rampa do Palácio do Planalto nos permite sonhar que talvez amanhã seja um dia mais colorido que ontem.
Sob a direção de Lazzaratto, é interessante reparar como esta montagem leva a plateia a entrar na ilusão: o ator João Portella abre o espetáculo interpretando um criado do hotel; ele narra as rubricas do texto introduzindo personagens que, à princípio, são compostos de maneira muito marcada e planificada – a cada momento que passa (especialmente quando deixamos o hotel), as personagens ganham contornos. Todos os números de mágica, em vez de serem realizados, são narrados por João, personagens saem de cena narrando sua própria morte. Somos convidados a imaginar e a entrar naquele jogo tão irresistível quanto perigoso. O próprio elenco é responsável por realizar as trocas de cenário diante dos olhos da plateia, descortinando as ilusões do fazer teatral. Assim, a Cia. Elevador aposta na força do texto e da atuação para mostrar o teatro em sua forma plena – e também sua melhor forma. Espectadores atentos irão se recordar que, após os horrores serem expelidos, o que resta no interior do recipiente é a Esperança. Resta saber, se Calogero irá abrir a caixa.
“A Grande Magia” esteve em cartaz no Teatro Raul Cortez, do Sesc 14 bis, entre 30 de agosto e 21 de setembro.
DOIS PAPAS (2017), de Anthony McCarten
A peça do dramaturgo neozelandês imagina um encontro fictício entre Joseph Ratzinger (Zécarlos Machado), o Papa Bento XVI, e Jorge Bergoglio (Celso Frateschi), que no tempo do enredo é o futuro Papa Francisco. Sua trama ficou conhecida em 2019 a partir do filme de mesmo nome dirigido por Fernando Meirelles. A peça abre com duas cenas nas quais é possível conhecer ambos os padres em sua intimidade e que apontam para o conflito que irá se seguir durante o encontro que se aproxima: tanto Ratzinger como Bergoglio pretendem se aposentar – o primeiro almeja o descanso por não entender seu perfil como um bom comandante da Igreja naquele tempo de crise; enquanto o segundo se encontra cansado de viver uma vida dedicada a ajudar ao próximo sem reparar em mudanças significativas na sociedade.
Seja nas duas cenas iniciais, onde cada padre dialoga com uma amiga freira – Brígida (Eliana Guttman), interlocutora de Ratzinger; e Sofia (Carol Godoy), interlocutora de Bergoglio –, seja nas cenas que retratam o encontro entre os pontífices, Dois Papas se estrutura como um drama de conversação no qual o embate de ideias opostas e seus argumentos estão em evidência. De um lado, representantes mais conservadores da Igreja; de outro, figuras mais progressistas que buscam reformá-la.
Dois Papas se apresenta como a fotografia de um período histórico, mais precisamente o início da década de 2010. Naquele período, os discursos progressistas ganhavam tração, em especial com a popularização da Internet e o princípio das redes sociais – parecia que a sociedade escolheria um caminho de tolerância e, quem sabe, de inclusão. Ao mesmo tempo, a sombra do reacionarismo ainda rondava as cúpulas do poder e também viria a se beneficiar das novas mídias. Temas como o aborto, o casamento entre homossexuais, a convivência com outras religiões e conflitos geopolíticos são debatidos pelos personagens, mostrando em qual fase estava a discussão de cada tema e possibilitando ao espectador que avalie o quanto a sociedade avançou ou regrediu naqueles pontos.
Ainda que a princípio o debate pareça ser conflituoso, ambas as visões ganham espaço para serem amplamente discutidas e consideradas e, aos poucos, passam a encontrar pontos em comum. Além disso, o que torna a peça interessante e evita que seu discurso se torne panfletário é justamente o retrato de seus personagens: mostrando suas vulnerabilidades, suas falhas, seus gostos pessoais por um programa televisivo ou por uma banda pop — especialmente o companheirismo que os pontífices demonstram com as suas interlocutoras e que, aos poucos, desenvolvem entre si.
Assim, se faz necessário um elenco capaz de navegar a complexidade dos debates e, ao mesmo tempo, construir personagens esféricos e carismáticos. Zécarlos e Celso são atores com uma trajetória longeva no teatro, o que torna o trabalho de ambos bem afiado para a empreitada. Zécarlos constrói um Papa Bento XVI rigoroso cujo conservadorismo passa a dar espaço para a vulnerabilidade e um autoquestionamento tanto de seu trabalho quanto de suas certezas. Por outro lado, Celso apresenta o Cardeal Bergoglio de forma bastante calorosa, demonstrando a simplicidade do pontífice – calor, esse que também acaba enveredando por momentos sombrios no qual o personagem precisa se confrontar com sua atuação durante a ditadura militar argentina. Mais do que um encontro entre autoridades históricas, o que é interessante de assistir em Dois Papas é o encontro entre dois atores experientes que, cada um à sua maneira, contribuíram para o avanço e formação do teatro brasileiro.
“Dois Papas” iniciou sua temporada no Teatro Cultura Artística em 22 de agosto, onde permaneceu em cartaz até 13 de setembro.
HADDAD E BORGHI CANTAM O TEATRO LIVRES EM CENA (2025), de Eduardo Barata e Elaine Moreira
O título é autoexplicativo. Este espetáculo promove o reencontro de dois titãs do teatro brasileiro em cena: Amir Haddad e Renato Borghi. Durante a apresentação, eles são entrevistados por seus colegas de elenco de forma a relembrarem suas trajetórias de vida: desde o momento em que foram fisgados pelo fazer teatral até o tempo presente, passando (como não poderia deixar de ser) pelo momento em que se conheceram aqui em São Paulo e a fundação do Teatro Oficina ao lado de Zé Celso. Em meio à conversa, diversas músicas pontuam a trajetória da dupla, tocadas ao vivo pelo Trio Julio.
É um espetáculo que demora a começar. Antes da primeira cortina cair, ouvimos a leitura que a ministra Carmen Lúcia fez de História de Um Crime, de Victor Hugo, durante seu voto no julgamento do núcleo crucial da trama golpista. Depois, duas palhaças e uma cantora lírica animam o público com canções e brincadeiras. Enfim, a segunda cortina se abre e então passamos a ouvir as histórias de Haddad e Borghi. Ainda que este prólogo seja divertido, é uma pena que o trio de atrizes que o conduz seja tão pouco utilizado no decorrer da peça.
Se de um lado o dueto não tem a mesma grandiosidade dos últimos espetáculos de Borghi (Alegria é a Prova dos Nove e O que nos Mantém Vivos?), de outro, a peça encanta pelo sabor das histórias narradas pela dupla – em especial pelo jeito descontraído de Amir, sempre com alguma piadoca e nenhuma papa na língua. A peça emociona os espectadores em especial pelas músicas que também servem para homenagear outros artistas da cultura brasileira: não tem como sentir um certo aperto no peito quando a trupe entoa que “ainda não havia para mim Rita Lee e a tua mais completa tradução” ao cantar Sampa, de Caetano Veloso, no momento em que o diretor mineiro e o ator carioca narram sua chegada na cidade da garoa. E é justamente na interpretação primorosa que Borghi faz do último monólogo de Próspero em A Tempestade que entendemos a força de um ator no palco e um texto no coração.
“Haddad e Borghi Cantam o Teatro” iniciou sua temporada no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação no dia 29 de agosto. Hoje, o espetáculo faz sua última apresentação às 18h – os ingressos estão esgotados.
📖 Uma dica de leitura: As Águas (2025, Editora Javali)
Em comemoração aos 21 anos da Velha Companhia, a editora Javali está lançando um livro que reúne as peças que compõem a trilogia temática escrita por Kiko Marques, diretor artístico do grupo. Já considerada um clássico do teatro paulistano, Cais ou Da Indiferença das Embarcações narra a história de três gerações de uma família moradora da Ilha Grande, entre as décadas de 1930 e 1990, sob o ponto de vista de um velho barco. Em Sínthia, acompanhamos as trajetórias de Maria Aparecida e de seu filho caçula, Vicente (esperado por ela como uma menina), desde seu nascimento em 1968, durante os chamados anos de chumbo da ditadura militar brasileira, até um reencontro no Natal de 2013. Por fim, Casa Submersa narra o encontro da bióloga marinha Maíra com uma figura marcante da história política do país, um evento que a leva em uma busca por sua própria origem.
Quanto custa? R$60,00
Onde posso comprar? No website da editora Javali.
🟢 Textos sobre Teatro publicados na Revista Galérica
Velha Companhia publica os textos de sua trilogia As Águas Editado pela Javali, livro reúne em volume único as peças Cais ou da Indiferença das Embarcações, Sínthia e Casa Submersa
ENTREVISTA | Kiko e Alejandra e Virgínia Fundadores da Velha Companhia relembram as histórias de sua trilogia As Águas
Até a próxima! 👋
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