Outubro de 2025
Número 10
Olá! Como vai? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Cartas a um Jovem Escritor, Os Mambembes, Mary Stuart, O Mercador de Veneza e Música para Morrer de Amor, além das Leituras para Herzog.
CARTAS A UM JOVEM ESCRITOR (2025), de Paulo Williams
Escrita e dirigida por Paulo Williams, a peça adapta as trocas de carta entre os escritores Mário de Andrade (interpretado por Rodrigo Mercadante) e Fernando Sabino (Caio Horowicz), intermediada pela figura de um carteiro (Fábio Neppo). O público acompanha não só o desenvolvimento da amizade entre a dupla, como também o desenvolvimento artístico de Fernando, que encontrou um mestre em Mário.
Em termos de dramaturgia, a peça precisa lidar com as limitações de seu material original: as cartas implicam que os personagens estão separados no espaço físico (e, na vida real, também geograficamente já que Mário morava em São Paulo e Fernando, em Belo Horizonte). Assim, a peça precisa se constituir enquanto monólogos e se limitar a citar, por meio das missivas, os momentos em que estas figuras se encontraram pessoalmente. A solução encontrada está justamente no personagem do carteiro que serve de interlocutor de ambas as partes e permite que Rodrigo e Caio tenham com quem interagir – no entanto, no decorrer da peça, o personagem acaba se tornando pano de fundo.
Isso porque o que há de mais interessante no espetáculo acaba aparecendo um pouco depois de sua metade. Passamos a conhecer melhor a visão política de Mário e Fernando e ela informa a arte produzida por cada um deles. Estas discussões acabam interferindo na amizade de ambos a partir de um incidente curioso: Fernando convida Mário para ser seu padrinho de casamento, no entanto o amigo recusa uma vez que Getúlio Vargas seria o padrinho da noiva de Fernando. Fiel às suas convicções libertárias, Mário enxergava Getúlio enquanto um ditador já na época em que o governante ainda estava no que seria um “Governo Provisório” (1930-1934 – mas que depois, como bem sabemos, levaria ao Estado Novo).
Por meio desta situação, Cartas a um Jovem Escritor demonstra a sua atualidade. A peça discute o papel do artista na sociedade e nos leva a refletir para quem os artistas produzem: para a coletividade ou para servir ao interesse da classe dominante? Como fazer arte em tempos ditatoriais? Como lidar com civis, pessoas comuns, pessoas que são boas e no entanto acabam por qualquer motivo escolhendo se filiar ao lado do autoritarismo? Como se comportar diante do inimigo: recusando qualquer tipo de contato ou estando disposto a dar sua outra face?
A peça também serve de veículo para as habilidades de seu elenco. De um lado, Rodrigo (que parece especializar-se em interpretar figuras relacionadas ao universo literário) demonstra uma atuação mais experiente e madura, sempre solar, e seus dons para o piano. De outro, Caio (que parece especializar-se na atuação em dramas históricos que envolvem ditaduras) demonstra a vitalidade de um jovem artista e exibe seus talentos na bateria, piano e também no canto.
“Cartas a um Jovem Escritor” fez sua estreia em 08 de outubro no CCSP, onde permaneceu em cartaz até o dia 19.

OS MAMBEMBES (2024), adaptação de Daniel Belmonte, Emílio de Mello e Gustavo Guenzburguer a partir de Artur Azevedo e José Piza (1904)
Esta versão da comédia musical de Artur Azevedo foi idealizada por Claudia Abreu e Emílio de Mello. Uma vez que a narrativa acompanha uma companhia de teatro itinerante (ou seja, um mambembe), as primeiras apresentações do espetáculo ocorreram nas praças de cidades de estados como o Maranhão, Pará, Espírito Santos e Minas Gerais tendo um ônibus como o seu cenário – a peça foi reestruturada para os palcos, tendo um cenário modular fazendo as vezes do ônibus.
É clichê, mas não deixa de ser verdade: Os Mambembes escreve uma carta de amor ao teatro brasileiro. Na trama, o ator-empresário Frazão convida Laudelina Pires, uma jovem atriz amadora, para ser a primeira-dama de sua companhia itinerante. Ao saírem em turnê pelo interior do país, os artistas se deparam com o Brasil dos coronéis, e passam a depender da boa vontade dos poderes locais para o sucesso de sua viagem. Você deve ter reparado que eu não coloquei entre parêntesis o nome do ator que defende cada papel, isso ocorre porque todo o elenco – composto por Cláudia Abreu, Deborah Evelyn, Jui Huang, Julia Lemmertz, Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti – interpreta todos os papeis; assim cada personagem tem um figurino único, constituído de adereços como tiaras ou chapéus e representado por determinada cor (o que permite ao público identificar qual personagem aquele ator ou atriz está representando). Este dispositivo atesta a versatilidade do elenco presente em cena.
Muito do texto de Artur Azevedo foi preservado, sendo as mudanças mais significativas em seu início, quando a trupe de atores começa a rememorar sua trajetória nos palcos o que acaba levando a uma cena de A Gaivota, e no final. No decorrer da peça, diversos cacos são adicionados para fazer menções ao Teatro Oficina ou o de Contêiner ou também menções à grandes nomes dessa arte, como Cacilda Becker ou Fernanda Montenegro – momentos que, inclusive, serviram para adicionar comicidade ao espetáculo.
Originalmente, a peça termina com Laudelina descobrindo que um prefeito interiorano é seu pai e decide abandonar a trupe para viver com ele. Antes que isso aconteça, Deborah Evelyn interrompe a cena para explicar ao público que esse seria o desfecho, mas ela o julga ultrapassado uma vez que a mocinha tão independente abdica de seu sonho para voltar ao lar. Então a atriz passa a questionar seus colegas de elenco se algum deles largaria a vida de artista e todos se revelam incapazes de deixá-la. Como esse desenlace não é exatamente mostrado em cena, apenas debatido entre o elenco, essa reescrita joga fora qualquer possibilidade de catarse para a peça.
Ainda assim, Os Mambembes é um espetáculo muito bonito e divertido de assistir. As risadas explodiam pelo Tuca de tal forma que me fizeram pensar como são peças como essa – carismáticas, com um elenco afiado e bem entrosado – que fazem o trabalho de formação de público para o teatro. No fim das contas, é uma pena que ela esteja sendo apresentada em uma temporada tão curta no Tuca, um teatro frequentado mais por pessoas de classe média alta, e com a inteira a R$160,00. Não deixo de pensar o quão delicioso seria assistir a esse espetáculo em uma longa temporada gratuita no Parque Água Branca (como ocorreu com a produção de Mundaréu de Mim, de Vitor Rocha, feita pelo iBT) ou ao menos no Teatro Popular do Sesi.
“Os Mambembes” iniciou sua temporada no Tuca em 11 de outubro, onde permanece em cartaz até 16 de novembro. Para mais informações e adquirir os ingressos, visite a página do espetáculo no Sympla.
MARY STUART (1987), de Denise Stoklos
A Denise Stoklos, que é uma grande artista, escreve suas peças, dirige, interpreta. É atriz de teatro. E tudo de forma original, única! Esses dias, ela retornou a uma das obras principais de seu repertório, Mary Stuart no Teatro Estúdio.
Alguém cronicamente online talvez reconheça a paráfrase que fiz acima de uma entrevista concedida por Denise na qual ela usa termos similares para descrever o trabalho de Björk, artista musical islandesa, e seu processo criativo – uma entrevista que virou meme. Não é exagero caracterizar o trabalho da própria Denise da mesma forma. Desde quando seu monólogo nasceu em Nova York no Café La MaMA, ele tem sido elogiado pela crítica internacional. No Brasil, Denise foi a primeira atriz a ganhar o prêmio Shell-RJ na categoria de Melhor Atriz (dividindo esse marco com Cláudia Mello que venceu em SP), além de receber um APCA na mesma categoria. O espetáculo chegou a ser apresentado em 33 países e falado em sete idiomas (incluindo o ucraniano e o russo) – Denise fez aulas com professores locais de forma a executar a peça no idioma do país sem a necessidade de tradução.
Elaborado na esteira da segunda onda do Feminismo, o texto de Mary Stuart conta sobre a relação entre a rainha da Inglaterra Elisabeth I e sua então prisioneira, a rainha da Escócia e personagem titular do espetáculo. Com isso, o solo versa sobre a relação entre essas duas mulheres, comandantes de nações poderosas, e sua rivalidade que surgiu seja pelo fato de ambas serem pretendentes ao trono inglês, seja por sugestões de seus conselheiros (e portanto das tramas políticas e manipulação masculina), mas que também tem raízes no fato de ambas serem mulheres – uma das personagens, inclusive, chega a admitir que se uma delas tivesse nascido homem, um matrimônio entre ambas teria sido a melhor escolha para unir os dois reinos. Assim, o espetáculo acaba discutindo temas como o exercício do poder, a opressão, a liberdade e a experiência feminina em posições de comando.
O que chamou a atenção para o solo em sua estreia está na fundação de uma proposta que Denise chamou de “Teatro Essencial”, pautado quase exclusivamente na presença do ator e seus recursos humanos (voz, corpo, inteligência e intuição), sem valer-se de grandes efeitos – o figurino (camisa e calça preta), o cenário (apenas uma cadeira preta) e a iluminação (muitas vezes, apenas um foco de luz) são minimalistas. Dessa forma, o grande destaque é a atriz que conduz a peça: Denise demonstra grande vitalidade ao representar ambas as personagens, mudando não apenas o tom como também a postura, o ritmo de sua fala, o gestual, seu olhar e as expressões faciais para diferenciá-las.
Assim, o prazer de assistir Mary Stuart hoje está naquilo que venho descrevendo tanto ao resenhar as diversas remontagens que tivemos este ano, quanto ao resenhar peças comandadas por atores veteranos: a possibilidade de ver uma atriz madura em cena, com anos de prática e vivências acumulados e como tudo isso acaba por afiar sua atuação. Quase 40 anos depois da estreia do solo, Denise Stoklos ainda nos impressiona e cativa com seu retrato das monarcas britânicas.
“Mary Stuart” iniciou sua temporada no Teatro Estúdio em 30 de agosto, onde permaneceu em cartaz até 25 de outubro. Em novembro, o espetáculo fará duas apresentações no mesmo teatro dias 06 e 13 (quintas) às 20h – os ingressos estão disponíveis no Sympla.
O MERCADOR DE VENEZA (2025); adaptação de Bruno Cavalcanti, a partir de Shakespeare (cca. 1596-1598)
Atualmente, encenadores têm demonstrado hesitações ao adaptar clássicos por não considerar que alguns se prestem à contemporaneidade – o que não deixa de ser paradoxal, afinal o que confere o selo de “clássico” a uma obra não é justamente sua atemporalidade? Em vez de ressaltar o que ainda existe de atemporal nestes textos ou de tensionar suas problemáticas, a solução que se encontra na maior parte das vezes está em reescrever estas peças (com muitas ou poucas alterações). Traduzida e adaptada por Bruno Cavalcanti e sob a direção de Daniela Stirbulov, a montagem de O Mercador de Veneza em cartaz no Tucarena se vale de ambas estratégias.
Um dos motivos para considerar este texto do bardo espinhoso está na composição de Shylock, um mercador judeu que assume a posição de um agiota e o antagonista da trama. Em Veneza, os negócios de Antônio (Cesar Baccan) – o personagem titular – vão mal, mesmo assim ele aceita patrocinar a viagem de seu amigo Bassânio (Marcelo Ullman) à Belmonte para que o amigo possa cortejar Pórcia (Gabriela Westphal). Para financiar a empreitada, Antônio contrai uma dívida com Shylock (Dan Stulbach): se Antônio não pagar, a multa cobrada será uma libra de sua carne, que deve ser extraída e entregue à Shylock. Bassânio consegue a mão de Pórcia em casamento, mas os navios de Antônio parecem ter naufragado e ele precisa decretar falência – com isso Shylock tem a oportunidade de vingar-se do mercador ao exigir de forma implacável que a multa seja cobrada.
Como forma de lidar com um possível antissemitismo do texto original, a direção opta por dar destaque à Shylock. O próprio texto de Shakespeare já compõe o personagem de forma esférica ao explicitar suas razões para antagonizar os mocinhos: cansado de ser humilhado e ostracizado, ele já não é mais capaz de estender a outra face. Daniela não teve medo de encenar momentos de crime de ódio explícitos perpetrados contra Shylock, já a escolha de Dan Stulbach para o papel e seu carisma conquistaram a simpatia do público. Todos os demais personagens são retratados como pessoas ou fúteis, ou abertamente babacas, ou os dois. Assim, quando Antônio exige, como punição, que Shylock se converta ao Cristianismo, a plateia reage àquela violência, entendendo a crueldade daquela sentença. Assim, a montagem consegue se posicionar contra o antissemitismo. Resta saber se o público foi capaz de estabelecer alguma conexão entre a xenofobia e a intolerância religiosa sofrida por Shylock com a LGBTfobia, o racismo ou até mesmo com a ironia em termos um genocídio perpetrado pelo estado de Israel, em nome do Judaísmo, contra os palestinos.
A montagem também explicita outros elementos que normalmente ficam escondidos no subtexto: o possível amor que Antônio sente por Bassânio. Após Antônio ser livrado de pagar a multa (o que causaria sua morte), os dois compartilham um beijo apaixonado – o que leva o público ao riso. Ainda que este momento seja importante para desarmar o final feliz escrito pelo bardo, há que levar em consideração esta reação da plateia. Seu riso ao vê-los se beijando esbarra na homofobia recreativa. Antônio é caracterizado por Cesar de forma extremamente heterossexual, dando berros por qualquer motivo, tentando demonstrar força e virilidade. O beijo enquanto um momento surpreendente leva a uma reação da plateia como se, para quem assiste, fosse ridículo ver homens tão viris demonstrando afeto ou desejo sexual, como se a leve desmunhecada de Bassânio fosse uma falha de sua masculinidade.
Bruno Cavalcanti escreve no programa:
Mas o que tem a ver a história de um mercador, um judeu e as guerras do mundo contemporâneo? Ora, tudo. E nada! Não é meu dever explicar o que diz a obra e como ela se relaciona com o tempo presente. É da plateia.
O público é quem deve decidir como se relacionar com esta história e, à luz do contexto geopolítico e de sua própria visão de mundo tirar uma conclusão. Mesmo que seja conclusão nenhuma.
Esta colocação pode ser leviana ao deixar a interpretação da obra apenas a cargo da plateia. Afinal, uma peça teatral não se materializa a partir do vácuo. Todos os detalhes do que pode ser visto ou ouvido no palco são as escolhas de seu adaptador e de sua diretora. São essas escolhas que, no fim das contas, serão capazes (ou não) de fazer com que um clássico se sustente nos dias atuais. E, parando pra pensar: se é trabalho da plateia chegar às suas próprias conclusões porque o programa deste (e de outros) espetáculo(s) vem recheado de textos da equipe criativa que mais parecem cartas de intenção?
Ao pensar sobre o espetáculo no decorrer deste mês, considero esta montagem bem-sucedida não apenas pelo desempenho de seu elenco ou da direção, como também pela maneira como ela lida com seu desenlace. A conclusão na qual se chega ao terminar a peça é que talvez seus protagonistas não tenham o final feliz que uma comédia promete. Pórcia tem razões para acreditar que seu marido não será fiel, Antônio segue sozinho e desmoralizado, Jéssica ressente ter abandonado seu pai. Se eles nem sequer foram capazes de conviver em Veneza com quem praticava uma religião diferente da deles, como o amor verdadeiro poderia desabrochar em Belmonte? Na última fala, Pórcia propõe que eles brindem, mas o clima é de fim de festa. Eles podem ser ricos, mas dinheiro não compra amor.
“O Mercador de Veneza” iniciou sua temporada no Tucarena dia 04 de outubro, onde permanece em cartaz até 14 de dezembro – os ingressos estão esgotados.
MÚSICA PARA MORRER DE AMOR (2010), de Rafael Gomes [Empório de Teatro Sortido, v.2025]
Em comemoração ao aniversário de 15 anos da montagem original, o Empório de Teatro Sortido produziu uma nova encenação de Música para Morrer de Amor. Dirigida por Victor Mendes (ator na montagem original) e Fabrício Licursi, esta versão traz um novo elenco e restaura o texto original para três atores – em versões apresentadas em 2019 e 2021, Rafael Gomes (então, o diretor) havia transformado o próprio texto em uma peça para quatro atores com um dispositivo que acabava dissipando o lirismo da obra. A peça não é um musical apesar do título, só que nesta versão algumas passagens do texto também foram transformadas em canção – fazendo valer a escalação de um elenco experiente em musicais e conferindo certo charme ao espetáculo.
A peça é formada por três monólogos em uma trama compartilhada, a narrativa é simples: Ricardo (Vitor Rocha*) se apaixona por seu melhor amigo Felipe (Daniel Haidar), que se apaixona por Isabela (Luiza Porto), que acabou de terminar um namoro e não quer mais saber de “Amor”. Ainda que eles estejam apenas descobrindo o que “Amor” é. Isso porque seus personagens demonstram ter muitas idealizações com relação às suas paixões, mas eventualmente se veem confrontados pela realidade das coisas.
A estrutura dramática e as falas dos personagens parecem se inspirar no ensaio Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, no qual o filósofo francês argumenta que o discurso amoroso se encontra em extrema solidão, tendo se tornado apenas uma afirmação. Para Barthes, só seria possível analisar o “Amor” a partir do que enamorados dizem ao se encontrar diante do seu objeto de paixão. Ele escreve: “Com efeito, o enamorado não para de correr dentro de sua própria cabeça, de empreender novos caminhos e de intrigar contra si mesmo. Seu discurso só existe por lufadas de linguagem, que lhe vêm no decorrer de circunstâncias ínfimas, aleatórias.”
Essa solidão explica a estrutura de monólogos erguida por Rafael. Ensimesmados e cegos por suas idealizações, Ricardo ignora que Felipe seja hetero; Felipe não percebe que Isabela não gosta dele tanto assim; e Isabela não consegue superar seu ex. Isso explica inclusive porque, apesar de serem melhores amigos, Ricardo e Isabela nunca se deram conta da quadrilha em que estão inseridos. Porque, para eles, morrer de amor, é mais gostoso do que vivê-lo. O conflito real aparece justamente quando a ilusão é confrontada com a realidade: Ricardo vê Felipe beijar Isabela. E então, esse sentimento todo precisa vazar para algum lugar. A jornada deste trio está em compreender o “Amor” não como substantivo, mas como o verbo “Amar”, está em transformar ideia em ação.
Tendo em vista sua carpintaria cuidadosa, Música para Morrer de Amor é uma peça que depende apenas da execução que seu elenco faz do texto: como os atores bordam cada palavra para nos conduzir pelo oceano de seus sentimentos. Nesse sentido, Mendes e Licursi acertaram em elaborar uma direção que não chama atenção para si mesma – sendo apenas a mudança de cenário, que aos poucos se transforma em um relicário, mais chamativa. A dupla soube conduzir o elenco para trazer o melhor de cada um deles: o carisma de Daniel, a raiva misturada com doçura de Luiza e o cuidado de Vitor com as palavras (aliás, é muito interessante ver o ator defendendo, pela primeira vez, um texto que não foi ele quem escreveu).
* Durante a temporada, o ator Arthur Berges, interpretou o personagem Ricardo às quintas e sextas; Vitor defendia o papel às quartas, sábados e domingos.
A nova versão de “Música para Morrer de Amor” iniciou sua temporada no Teatro Estúdio em 11 de outubro, onde permanece em cartaz até o dia 30 – os ingressos para as duas apresentações de hoje (às 15h e às 18h) e para as apresentações de 29 e 30/out podem ser adquiridos no Sympla.
LEITURAS PARA HERZOG | Instituto Vladimir Herzog e Centro MariAntonia
Durante este mês, o Centro MariAntonia recebeu um ciclo de leituras dramáticas em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. Elaborado a partir da pesquisa de mestrado de Marco Pedra orientada por Elizabeth Azevedo, o evento tinha como proposta rememorar o assassinato do jornalista pela ditadura militar em 1975 a partir de peças que, cada uma a sua maneira, aludem ao crime. Além das leituras, a cada noite, um convidado participava de um debate sobre o texto apresentado.
No dia 03, ocorreu a leitura dramática de Patética, de João Ribeiro Chaves Neto, realizada por estudantes do curso de Artes Cênicas da USP sob a orientação de Mariana Mayor. A trama usa como dispositivo uma trupe de circo prestes a se dissolver que encena os últimos dias de vida de Glauco Horowitz, um jornalista que fugiu ainda criança da Iugoslávia devido à ataques nazistas e, anos depois no Brasil, foi vítima da ditadura militar – uma trajetória que alude à de Herzog. Assistir jovens realizando este texto dava a dimensão do perigo de certas histórias serem esquecidas por estarem distantes no tempo e que uma boa maneira de rememorá-las está justamente em fabular o que poderia ter ocorrido.
Já no dia 10 de outubro, ocorreu a leitura dramática de Ponto de Partida, de Gianfrancesco Guarnieri. A história começa quando o poeta e pastor de cabras Birdo, é encontrado enforcado, com o corpo pendendo de uma árvore no centro de uma praça. A população da aldeia indaga a causa da morte e um inquérito é aberto para saber se o ocorrido é fruto de um suicídio ou de um assassinato. Foi uma leitura particularmente emocionante, uma vez que seus intérpretes, mais que ex-alunos dos cursos de Jornalismo e Artes Cênicas da USP, foram amigos de Vladimir Herzog e o conheceram na faculdade. Dirigidos por Mirtes Mesquita (que também leu a personagem Maíra), o elenco apresentava muita segurança com o texto – mesmo aqueles que não são atores de formação – muito provavelmente porque seus anos de experiência lhes possibilitou a calma e o cuidado de adentrar uma obra tão densa e que se vale de tantos símbolos e analogias.
Por fim, o grupo Nora Teatro (formado por ex-alunos de Artes Cênicas da Unicamp), realizou a leitura dramática da peça Fábrica de Chocolate, de Mário Prata. O enredo se inicia quando os torturadores Rosemary e Baseado matam, impensadamente, um operário de uma fábrica de chocolates por exagerarem na medida da tortura. A partir daí, eles acionam seus chefes, que decidem forjar e fotografar uma cena de suicídio para encobrir o crime. Sob a direção de Marco Pedra, a impressão que se tinha era a de que o elenco sequer lia suas falas tamanha era sua desenvoltura para lidar com o texto. Além de negociar muito bem com o humor presente no texto e seu enredo tão sórdido, suas atuações apresentavam personagens deliciosos de assistir como um chefe policial mais preocupado em assistir a uma final de futebol, e uma portuguesa especialista em limpar cenas de crime.
Até a próxima! 👋
Você também assistiu alguma dessas peças? Ficou animado para ver alguma delas? Conta pra mim nos comentários! Espero que você tenha gostado das minhas opiniões singelas - nesse caso, lembre-se de deixar seu like. A próxima edição chegará na sua caixa de entrada no dia 30 de novembro.
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