Novembro de 2025
Número 11
Oioi! Como você tá? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Um Fax para Colombo; Quem é Juão; As 3 Cores Primárias e Triste! Triste… Triste?.
UM FAX PARA COLOMBO (1992), de Denise Stoklos
Após a temporada de sucesso de Mary Stuart no Teatro Estúdio, Denise Stoklos passou a apresentar naquele espaço uma releitura de outro monólogo elaborado por ela e que, assim como seu retrato das duas rainhas britânicas, também marcou época. Encenada pela primeira vez no contexto dos 500 anos da chegada de Colombo às Américas, a atriz envia um fax para aquele que teria promovido seu descobrimento.
Trata-se de um texto bastante político. Em determinado momento, a atriz faz justamente o apontamento de que qualquer obra de arte, ou ação mínima que tomamos em nossas vidas, é política – afinal, se analisarmos bem o que está por trás dessas ações e decisões, é sempre possível encontrar uma dimensão que vai além do simples livre-arbítrio e que está condicionada pela materialidade. Entretanto, se o caráter político de Mary Stuart se esgueirava pelo subtexto, em Um Fax para Colombo suas colocações são explícitas.
Neste diário de bordo, Denise inverte o olhar: a história não é contada pelo vencedor, mas por quem sobrou após o massacre dos povos originários, da escravização dos africanos e da imposição da cultura europeia. Em um manifesto descolonial, a atriz desmonta o mito da conquista ultramarina denunciando tais opressões. A colonização do continente americano é retratada como uma ferramenta violenta que garante a permanência centenária dos povos latinos-americanos no subdesenvolvimento.
Nesta montagem, Denise lê o texto da peça enquanto senta-se à mesa. Por mais que tenha sido uma leitura dramática, toda a sua expressividade corporal tão marcante permanece presente em cena – a atriz modula a voz, promove gestuais e, por vezes, até passa longos parágrafos sem sequer olhar para o livro que tem em mãos. Ao mesmo tempo, a visão de uma atriz lendo de um livro, objeto que já demonstrava sinais de desgaste devido anos de manuseio, ajudava a dimensionar o escopo temporal da obra: tudo o que Denise versava parecia dizer respeito ao tempo atual, à situação sócio-política atravessada pelo Brasil, pela América e pelo mundo no presente – entretanto, a visão do livro lembra ao espectador que aquela obra é de 1992 e, portanto, os apontamentos de Denise permanecem até hoje irresolvidos.
Mais do que uma remontagem para reviver glórias artísticas, o fax de Denise é uma mensagem que ainda precisa ser enviada – afinal, as estruturas de poder denunciadas pelo documento ficcional seguem atuantes. Mais do que testemunhar a habilidade de uma atriz veterana, ouvimos o reencaminhamento de uma mensagem que parece nunca ter encontrado seu destinatário.
A leitura de “Um Fax para Colombo” estreou no Teatro Estúdio em 05 de novembro e faz sua última apresentação neste teatro hoje às 20h - os ingressos estão disponíveis no Sympla.
QUEM É JUÃO (2025), de Vivi Moraes a partir das canções de Jota.pê
Em sua simplicidade, leituras dramáticas tem o poder de revelar boas dramaturgias. Foi o que aconteceu em 2023 com o texto de Vivi Moraes, apresentado pela primeira vez ao público durante o encerramento da Incubadora de Musicais, um projeto do Núcleo Experimental no qual Fernanda Maia e Zé Henrique de Paula ofereciam mentoria para jovens escritores de forma a incentivá-los na elaboração de musicais originais. Apenas com um elenco voluntário e ainda com texto em mãos, as canções de Jota.pê ganharam outros contornos e vida nova. Algum tipo de magia se iniciava ali – muito por conta, é claro, da inventividade e sensibilidade de sua dramaturga.
Dois anos depois, o espetáculo foi apresentado pela primeira vez em uma produção completa, assinada pela própria Vivi ao lado de Audi Arruda, Larissa Castilho e Rodrigo Marques; e sediada pelo Teatro Marte Hall. Sob a direção de Paulão do Vraah, com a parceria de Rômulo Vlad na coreografia, o musical demonstrou não apenas todo o seu potencial enquanto uma obra teatral, como também o das jovens artistas que fazem parte de sua equipe criativa e de seu elenco. Ainda que se valha das músicas de um cantor, este musical não é uma biografia, mas uma fantasia ambientada em Lugar Nenhum. A trama acompanha a jornada de Juão (interpretado por Hipólyto), um jovem sonhador que se muda da Cidade do Meio para a Cidade da Ponta em busca de realizar seu sonho de se tornar um grande cantor.
Talvez o fato de ser um musical produzido de forma independente tenha feito com que a direção precisasse se ancorar no texto e na execução do elenco, de qualquer forma o trunfo no trabalho de Paulão está justamente em não chamar atenção para si e articular com cuidado não só estes dois elementos como também a coreografia. Se fiz questão de frisar a parceria entre Paulão e Rômulo é porque a dança vai muito além dos números musicais, os movimentos sincronizados transformam o restante do elenco em um verdadeiro coro, muitas vezes o corpo dos próprios artistas em cena transforma-se em cenário fazendo com que o palco raramente esteja vazio.
Conduzida por Guilherme Leal e Nana Nunes, a direção musical confere teatralidade às canções de Jota.pê mantendo a essência de suas versões originais. Os melhores momentos sem dúvida são a transformação de “Moça, sorria” de uma balada romântica para uma batida festiva e, é claro, “Garoa”, uma canção que, quando escutada nas vozes de um coro, cura onde dói.
Além de evidenciar os talentos de sua autora, diretora e coreógrafo, a peça traz um elenco carismático. Hipólyto mostra todo seu charme e doçura ao compor um protagonista sonhador e tímido que ainda tem muito o que aprender. Sua atuação contrasta com a de Thales Cesar no papel de Jassie James, um alter-ego de Juão invocado por meio de um acordo faustiano – os momentos no segundo ato em que ambas as personas batalham pelo domínio do protagonista demonstram não só a química de dois atores talentosos, como também a alquimia feita por Paulão em conduzir a ação. Se Hipólyto e Thales já são mais conhecidos na cena teatral, Quem é Juão revela os talentos de Luma Gouveia no papel de Mila, compondo uma jovem que aprende a tomar as rédeas de sua vida e a seguir suas pulsões; e também o talento cômico de Eduardo Montoro, que rouba a cena interpretando Lucas.
O musical Quem é Juão estreou em 17 de novembro no Teatro Marte Hall onde segue em cartaz até 02 de dezembro. Os ingressos para as duas últimas apresentações – dia 01/dez (segunda) e 02/dez (ter), sempre às 20h – estão disponíveis no website Olha O Ingresso ou no Bilheto.
AS 3 CORES PRIMÁRIAS (1955), de Yukio Mishima [Mundana Companhia, 2025]
Escrita pelo dramaturgo e escritor japonês Yukio Mishima (1925-1970), a peça se passa em uma praia no decorrer de uma tarde. Yoko (Julianne Hamaoka), uma jovem de 19 anos, está dividida entre o amor de seu marido Ken (Dom Capelari), rapaz de 25, e o amigo dele Shun (André Mourão). Quando Ken descobre o caso dos dois, um conflito parece se estabelecer na relação do trio. Porém tão logo os dois rapazes se veem sozinhos, ambos encontram coragem para professar o amor que sentem um pelo outro. Com isso, o trio acaba percebendo que, talvez, um relacionamento a três pudesse enfim trazer harmonia para suas vidas. Uma peça sobre amor na juventude, sobre um casal rico sustentado pelos pais do marido – um jovem que sequer trabalha e sente que sua vida ainda não começou. Tendo em vista esta sinopse, um espectador contemporâneo poderia se perguntar “O que As 3 Cores Primárias tem a dizer, afinal?”
O interesse pela peça se apresenta a partir do momento em que recebemos mais informações sobre seu contexto de composição: trata-se de um texto escrito em 1955. Podemos, então, pensar em um Japão que ainda lida com os traumas da 2ª Guerra Mundial e que abriga uma sociedade patriarcal e conservadora. Neste contexto, o amor que floresce entre dois homens e o final feliz tem uma conotação mais disruptiva em uma sociedade onde isso ainda não era bem aceito; uma poetização da natureza se apresenta como um contraponto a uma urbanização vertiginosa; e um final onde os personagens optam por viver em harmonia se torna um pedido de paz para o mundo.
O desafio da Mundana Companhia nesta montagem estava, portanto, em transpor o peso deste contexto para os dias atuais ao mesmo tempo em que não deixasse a obra parecer uma peça de museu. Nenhum desses objetivos realmente foi atingido. De um lado, o cenário de Ana Verzu e Flora Berlotti sugere a praia por meio de um chão de madeira amarela, o calor da tarde ao pintar a caixa cênica de vermelho e o azul do mar, que flutua na plateia, com a ajuda da iluminação de Ricardo Morañez – uma estilização minimalista que confere contemporaneidade à montagem. Contemporaneidade que também aparece nos interlúdios entre as cenas quando os personagens, em arroubos de emoções passam a fazer movimentos próximos ao da dança contemporânea – algo que me parece dificultar a atuação do elenco em atingir um realismo ou mais profundidade nos diálogos (me parece que a direção quis discutir mais significados que as ações do texto).
Por outro lado, termina-se a peça sem a dimensão do quão interessante o trabalho de Mishima teria sido para sua geração. Trata-se de um escritor reconhecido por fundir as tradições literárias japonesas com as ocidentais, principalmente por meio do retrato da homossexualidade. As 3 Cores Primárias é um texto situado numa fase de maturação de sua estética e é um dos poucos a oferecer um final feliz para seus personagens não-hetero. Só que, com exceção da temática, o restante da peça corre quase como um drama aristotélico clássico. E considerando o impacto dessa temática na atualidade: ainda que a homossexualidade não seja plenamente aceita no Brasil, ela já é um assunto bastante cotidiano para frequentadores de teatro fazendo esmaecer o teor disruptivo da história. Sem qualquer contraponto, o final utópico do texto soa quase alienado: sim, é bem possível que um casal homossexual de classe média nos dias atuais leve uma vida plena, mas essa homossexulidade seria bem aceita na periferia?
Por ser uma obra que depende de conhecermos o contexto histórico e cultural do período de sua composição de forma a compreender suas reais dimensões, talvez a própria escolha desse texto não tenha permitido que a Mundana Companhia realizasse uma re-apresentação de Mishima aos espectadores paulistanos a contento.
“As 3 Cores Primárias” iniciou sua temporada no Instituto Cultural Capobianco em 26 de setembro, onde permaneceu em cartaz até dia 16 de novembro.
TRISTE! TRISTE… TRISTE? (2025), de Nicolas Ahnert
Assim como em Quem é Juão, este projeto também se mostra um veículo excelente para revelar novos talentos; tanto o de seu diretor e dramaturgo Nicolas Ahnert, quanto o do escritor Gabriel Abreu cujo livro de estreia Triste Não é ao Certo a Palavra serviu de base para este monólogo. No primeiro solo interpretado por Thalles Cabral, acompanhamos um jovem adulto cuja mãe está prestes a falecer de uma doença degenerativa próxima a uma demência; o rapaz recebe uma caixa repleta de cartas e fotografias da época em que sua mãe era jovem e passa a tentar recompor as memórias dela – neste processo as personas de ambos acabam se misturando.
Ainda que valendo-se de um televisor para trazer recursos multimídia, ainda que o cenário seja essencialmente um longo espelho d’água, ainda que as cenas protagonizadas pela mãe se valham da linguagem de shows de entrevista, a encenação do monólogo se ancora essencialmente no texto e na execução que seu ator faz dele. É interessante reparar como a direção de Nicolas é precisa: os recursos multimídia e o cenário são realmente chamativos, mas não há excessos – os elementos cênicos são articulados na medida certa para realçar a emoção que cada cena pede. O resultado é um espetáculo envolvente: queremos saber mais sobre aquela mãe, queremos saber como aquele filho irá lidar com o luto em vida. A sensação final é um gostinho de “quero mais” e é nesse sentido que a peça é um bom veículo para o livro de Gabriel – afinal, me deixou curioso para fazer sua leitura.
A escolha de Thalles Cabral para um projeto que depende tanto de seu intérprete não poderia ser mais acertada: com experiência considerável nos palcos e no audiovisual, o ator ainda está galgando seu espaço na atuação o que traz equilíbrio para a empreitada: de um lado, o talento necessário; de outro, a generosidade com colegas ainda em estágio de experimentação. Também é justamente este tipo de projeto que ajuda a redimensionar a trajetória de um ator.
Praticamente cercado pela plateia e com o público tão próximo do espaço cênico, Thalles não tem outra opção que não seja mergulhar nessa aproximação. Ele demonstra estar à vontade nesta posição entregando suas falas para os espectadores olhando no olho de cada um, como se numa conversa entre amigos íntimos. Também exibe todo seu carisma ao conduzir uma cena de um encontro no karaokê entre a personagem da mãe e um ex-namorado, deixando seus escolhidos para interpretar os papéis confortáveis sob o holofote momentâneo. Thalles revela a vulnerabilidade de seus personagens de maneira sincera e sóbria; esta desenvoltura com momentos mais delicados ou melancólicos já era conhecida de quem acompanha sua trajetória. Por isso que esse carisma e domínio dos espectadores me levam a imaginar como seria seu desempenho em obras mais solares; haja visto a tendência do ator de envolver-se com textos mais trágicos, personagens que sofrem… enfim, coisas tristes – sem dúvidas, há um potencial nesse outro lado da balança que ainda está para ser explorado pelo ator.
“Triste! Triste… Triste?” iniciou sua temporada no no teatro do Núcleo Experimental em 11 de outubro. Hoje, a peça faz sua última apresentação da temporada às 19h - os ingressos estão disponíveis no Sympla.
Até a próxima! 👋
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