Junho de 2025
Número 06
Olá! Como vai? Nesta edição, vou comentar sobre as peças João, Lady Tempestade, Oz, Pororoca e Trilogia Kafka. Também vou trazer uma dica de exposição sobre a história do teatro nacional, além de uma dica especial que mescla leitura e cinema.
JOÃO (2025); de Marcelo Marcus Fonseca (texto), Vitor Rocha (letras) e Marco França (música) [Cia. da Revista]
O novo musical da Cia. da Revista vem para completar sua trilogia “Conexão São Paulo-Pernambuco” – sendo os espetáculos anteriores Nossos Ossos (2021) e Tatuagem (2022). A trama compara a história de vida do poeta João Cabral de Melo Neto (interpretado por Vitor Vieira) com um outro João (Dudu Galvão), desta vez um personagem fictício. Enquanto Cabral de Melo sai de Pernambuco para o Rio de Janeiro, João vem parar em São Paulo onde acaba sendo acolhido por Gaivota (Marina Mathey) uma artista de cabaré que luta contra o despejo da casa onde viveu sua vida inteira.
A trama de Gaivota permite que João estabeleça paralelos com Morte e Vida Severina, poema de Cabral de Melo que ganhou notoriedade ao ser adaptado para os palcos como um musical. Se o poema trata da distribuição de terras no contexto agrário, o musical da Cia. da Revista leva a questão para os centros urbanos para questionar o crescimento das grandes cidades, que gentrifica bairros centrais e empurra a população mais pobre para a periferia.
O “timming” não poderia ser mais trágico: no mesmo bairro que sedia a Cia. da Revista, outra companhia trava uma luta contra a prefeitura que quer desapropriar sua sede, o Teatro de Contêiner, para o projeto de um hub de moradia social. O curioso é que esta mesma prefeitura está passando por uma CPI que investiga fraudes relacionadas ao programa de Habitação de Interesse Social (HIS). A prefeitura de São Paulo também não levou em conta o trabalho da Mungunzá, que revitalizou um território nas cercanias da Cracolândia não apenas ao oferecer entretenimento num bairro desvalorizado, como também por sediar o Coletivo Tem Sentimento, um projeto que atua na redução de danos e na geração de renda para mulheres por meio da costura.
Voltando a João: o espetáculo equilibra discussões sobre arte — presente nos encontros de Cabral de Melo com outras personalidades da cultura — com a realidade árida do país; tratando não só de temas como a distribuição de terras ou a moradia, como também o trabalho precarizado e a transfobia. A direção de Kleber Montanheiro coloca a ação em uma arena na qual lados opostos se chocam e se misturam – onde a crueza da realidade se encontra com a beleza da poesia. Não posso terminar esta apreciação sem dedicar algumas linhas ao trabalho de Marina Mathey em sua interpretação de Gaivota. Desde seu retorno aos palcos com Brenda Lee e o Palácio das Princesas, a atriz tem demonstrado seu talento com atuações viscerais de personagens marcados tanto por sua força, quanto por sua vulnerabilidade. Sua presença cênica é magnética.
SERVIÇO
Onde? Espaço Cia da Revista (Alameda Nothmann, 1135 - Campos Elíseos)
Que dias? Sexta, sábado e domingo às 20h
Até quando? 03 de agosto.
Quanto custa? R$44,00 (inteira) e R$22,50 (meia-entrada).
Onde posso reservar os ingressos? No Sympla.
LADY TEMPESTADE (2024), de Silvia Gomez
Andrea Beltrão passou os últimos oito anos enterrando os mortos no teatro. Em Antígona, seu primeiro monólogo, a atriz narrava as tragédias que acometeram a dinastia dos Labdácidas a partir de seu episódio final quando a princesa Antígona tenta enterrar seu irmão mais novo de acordo com os ritos fúnebres sagrados. Talvez seja por isso que ela teve certo receio de ir em frente com a ideia de contar a história de Mércia Albuquerque nos palcos.
Quem propôs contar esta história foi Yara de Novaes, diretora de Lady Tempestade. Ela ficou sabendo sobre o trabalho da advogada pernambucana quando estava atuando no longa-metragem Zé e acabou encontrando os diários de Mércia. Yara e Andrea já estavam aventando uma possível colaboração nos palcos e a curiosidade da diretora pela história da advogada fez com que ela sugerisse que as duas utilizassem os diários de Mércia como ponto de partida. Apesar do receio inicial de Andrea em lidar com um tema tão dilacerante e ainda tão atual, elas decidiram ir em frente.
A dramaturgia de Lady Tempestade lida com esse receio. Uma atriz, nomeada como A., recebe os diários de Mércia pelo correio a partir de uma sugestão de R.. Ela teme lidar com o conteúdo das páginas, mas o diário não para de chamá-la. Aos poucos, a atriz se aprofunda tanto na leitura que sua própria figura passa a se confundir com a da advogada e, assim, passamos a conhecer a história de Mércia e seu trabalho na defesa de presos políticos durante a ditadura militar.
O tema central de Lady Tempestade é a memória e o quanto sua permanência ou ausência tem a capacidade de moldar quem somos e em qual país viveremos. Uma frase é repetida durante todo o monólogo: “essas coisas acontecem aconteceram acontecerão.” É justamente o fato dos horrores da ditadura terem sido jogados para debaixo do tapete, é justamente o fato dos torturadores não terem sido julgados, que permite policiais militares a assassinarem meninos pretos nas favelas – esta relação não sou eu quem está fazendo: em determinado momento, a peça é interrompida para que a plateia escute o áudio de uma entrevista concedida por uma mãe que, há poucos anos, viu seu filho morrer baleado por policiais na rua de casa.
Isso faz com que este monólogo crie uma conexão tão curiosa quanto triste com Macacos, de Clayton Nascimento, que também lida com o luto de uma mãe cujo filho, ainda criança, foi morto por policiais. Clayton explica que essas mães normalmente morrem pouco tempo depois da criança; elas morrem de uma tristeza muito particular, mais do que saudades, o sentimento que corrói é a indignação e o desamparo. Lady Tempestade dedica uma porção considerável de sua narrativa às mães de presos políticos e suas tentativas, ao lado de Mércia, para libertá-los ou, ao menos, de garantir a possibilidade de sepultar seus corpos.
O espetáculo se torna tão impactante quanto mais A. se aproxima de Mércia e os detalhes sobre os anos de chumbo são narrados. Nem é preciso dizer o quanto a interpretação de Andrea Beltrão é magistral ao navegar os sentimentos de ambas as personagens: de um lado, A. é mais introspectiva, melancólica e tem medo de mexer no passado; já Mércia, apesar do apelido que concede o título da peça, se mostra como uma figura solar, decidida e escreve para o futuro. A direção de Yara de Novaes é precisa em equilibrar os momentos de tensão para que eles também incitem nossa indignação, sem deixar a experiência indigesta – e sem esquecer de olhar para as flores que nascem no asfalto ou para as crianças que saem felizes da escola.
Ao resgatar a memória de Mércia, o monólogo soma-se ao coro de obras brasileiras que, juntas, fazem o trabalho de não deixar que as atrocidades cometidas pelos militares sejam esquecidas. Mais ainda: ao lado de filmes como Ainda Estou Aqui, Zé, A Batalha da Rua Maria Antônia e de espetáculos teatrais como Codinome Daniel, a peça ajuda a valorizar aqueles que foram os verdadeiros heróis e heroínas da nação. Ao mesmo tempo, o resgate do trabalho imprescindível de Mércia é uma maneira de dar aos mortos, assassinados pela ditadura, as homenagens fúnebres que lhes foram negadas pelo Estado. Andrea Beltrão passou os últimos oito anos enterrando os mortos no teatro. Ao final de Lady Tempestade, a atriz, enfim, os levanta.
“Lady Tempestade” iniciou sua temporada paulistana no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, no dia 30 de maio, onde permanece em cartaz até 06 de julho — os ingressos estão esgotados. O espetáculo volta a São Paulo dia 08 agosto para uma temporada no Teatro FAAP.
SERVIÇO - Temporada Teatro FAAP
Onde? Teatro FAAP (R. Alagoas, 903 - Higienópolis)
Que dias? Sextas e sábados às 20h, domingos às 17h
Até quando? 05 de outubro.
Quanto custa? R$ 160,00 (inteira - na plateia e mezanino) e R$ 200,00 (inteira - cadeiras no palco)
Onde posso reservar os ingressos? No website do teatro ou na bilheteria (aberta de quarta a domingo das às 14h às 20h e domingo das 14h às 17h)
OZ (2025), de Aline Mohamad [Aquilombamento Ficha Preta]
No primeiro espetáculo do coletivo Aquilombamento Ficha Preta após sua formalização enquanto grupo teatral, os espectadores são convidados para visitar a cozinha de um casal protagonizado por Edinho Santos e Letícia Calvosa. A proposta do espetáculo surge de uma vontade de falar sobre a vivência de pessoas pretas sem passar por um viés de marginalização e tragédias. Assim, OZ é uma peça sobre “Amor”; mais especificamente sobre o amor entre uma pessoa surda, o marido, e sua esposa ouvinte.
Sua dramaturgia é composta majoritariamente por diversos monólogos intercalados, nos quais as personagens compartilham suas vivências com os espectadores: o marido fala de sua experiência enquanto um homem surdo; a esposa fala de suas memórias familiares e, aos poucos, começa a surgir em seus relatos a personagem Zeneb, sua tia e uma mulher surda. Durante as falas da esposa, um telão projeta a tradução simultânea realizada por Larissa Martins em Libras; nas exposições do marido, Caroline Martins dá voz a sua fala, traduzindo sinais em palavras.
Essa estrutura expõe a simplicidade da dramaturgia de Aline Mohamad, correndo o risco de tornar a peça panfletária. Em alguma medida, o texto carece de mais carpintaria. Carece principalmente de um conflito – não necessariamente algo exacerbado, mas alguma adversidade que nos faça torcer ao lado das personagens ou alguma situação dramatúrgica que proponha um jogo entre os atores, aproveitando a química que Edinho e Letícia revelam em cena.
É justamente essa química que me faz considerar se faz falta a tradução de Caroline nos poucos e breves momentos durante os quais o casal interage entre si. Por um lado, a ausência de tradução das Libras para o Português oral, faz com que os espectadores ouvintes tenham que “trabalhar” para compreender a peça – algo positivo e que traz recompensas; é bem verdade que muito pode ser compreendido apenas pela atuação ao observar a interação da dupla. Por outro lado, há que levar em conta a curiosidade genuína do público ouvinte em compreender aqueles diálogos.
Sob a direção de Tainara Cerqueira e Rodrigo França, a peça é um banquete para os cinco sentidos. O cenário projetado por Rodrigo é recheado de pequenos elementos que transformam aquela cozinha em um ambiente vivo, suas cores vibrantes fazem o olhar passear pelo espaço. Como medida de acessibilidade, bolas de borracha são distribuídas para o público possibilitando aos surdos presentes na plateia que eles sintam as vibrações da música ao tocar nelas. O casal cozinha (e dança) enquanto escuta uma canção; o perfume do bolo de cenoura e do café preparados lentamente chegam até a plateia. E, por fim, o público pode saborear a comida preparada pela dupla. Toda essa elaboração com os sentidos demonstra o cuidado por parte dos realizadores de OZ e é este carinho que torna o espetáculo adorável.
“Oz” esteve em cartaz no Sesc Vila Mariana de 21 de maio a 26 de junho.
POROROCA (2025), de Elenice Zerneri [2 Mililitros Cia. Teatral]
Uma particularidade de Pororoca que pode chamar a atenção é seu público-alvo: a 2 Mililitros Cia. Teatral foca suas pesquisas em teatro para bebês de poucos meses a três anos de idade. Minha colega na Galérica, Lorenza Gioppo chegou a escrever um perfil da companhia para a revista descrevendo sua trajetória e explicando melhor como é uma peça para bebês. De forma resumida, a diferença aqui está não apenas na simplicidade da narrativa (com uma linha clara e sem reviravoltas complexas), como também no uso de uma iluminação mais suave com mudanças lentas e uma sonoplastia no volume certo para atrair a atenção das crianças sem assustá-las.
Pororoca, conta a história de Aruã, um molusco que vive no rio Amazonas. Sua vida seguia tranquila até que a passagem da pororoca tira tudo do lugar e faz sua concha desaparecer. Quando finalmente a encontra, descobre que um molusco, menor e mais jovem (seu irmãozinho), tomou posse de seu refúgio e agora vive dentro dele. A trama lida com o medo do desconhecido e também com o momento delicado no qual a criança deixa de ser a única filha de um núcleo familiar.
O que mais me chamou atenção no espetáculo foi sua feitura. Metade de uma casca vazia de um coco vira a concha de Aruã, depois um casaco vestido pelas atrizes transforma-se nela. O cenário, projetado por Lorenza (sim, a minha amiga) e feito de tubos de metal, sugere a ondulação das águas do Amazonas. Mais do que tentar fazer algo realista, ou usar bonecões, a companhia trabalha com a convenção teatral (literalmente com o “faz de conta”), estimulando a imaginação de seus pequenos espectadores. E é um trabalho de muito esmero.
E é nítido como o resultado tem um efeito positivo: as crianças observam a encenação com curiosidade e atenção. Eu peguei uma apresentação com um público formado por crianças de uns três anos de idade (talvez um pouco mais), nesta idade a compreensão de histórias já é parte integral do cotidiano; agora, quando o público é formado por bebês de poucos meses, não importa muito a compreensão da narrativa, mas a maneira como a criança recebe aqueles estímulos. E se as crianças corriam de um lado para o outro falando alto no saguão, ao entrarem na sala do CPT Sesc elas se mostraram o público teatral mais educado e respeitoso que tenho convivido ultimamente – nenhuma conversa paralela, nenhum celular disputando a atenção, todas de corpo e alma presentes. A segunda metade do “evento” permite que as crianças brinquem ao redor do cenário, interajam com as atrizes e os objetos de cena: foi bonito ver como um grupinho de desconhecidos conviveu muito bem durante alguns minutos.
No fim das contas, a diferença entre o teatro para bebês da Cia 2 Mililitros e o teatro para adultos feito por uma boa companhia teatral é praticamente nenhuma. O público-alvo pode ser outro, mas ainda é o teatro na sua melhor forma – e, justamente por isso, Pororoca (e os demais espetáculos do coletivo) se mostram como um projeto formação de público excelente.
“Pororoca” esteve em cartaz no Sesc Consolação de 01 a 28 de junho. O espetáculo deve fazer novas apresentações em outros espaços. Para mais informações, acompanhe o perfil de Instagram da 2 Mililitros Cia. Teatral.
TRILOGIA KAFKA, de Franz Kafka [Grupo Garagem 21, 2025]
Assistir a montagem do Grupo Garagem 21 de sua Trilogia Kafka foi uma experiência intrigante – não pelos motivos certos. O espetáculo agrupa três contos do escritor tcheco: em "Um Artista da Fome", um mestre de cerimônias (Helio Cicero) conta a história de um fakir cuja especialidade é passar dias em jejum e comenta o desaparecimento dessa forma de arte. Já em "Comunicado a uma Academia", um macaco falante (Pedro Conrado) relata sua transição de animal para quase humano. Por fim, em "Carta ao Pai", Kafka (André Capuano) escreve para expor a mágoa diante do autoritarismo de seu pai. Traindo o título do espetáculo, o texto “Diante da Lei” faz as vezes de um prólogo; nele, um homem vai até a porta da Lei pedindo acesso à Justiça, mas é sempre negado.
O que chama a atenção no espetáculo é sua direção de arte. O cenário projetado por J. C. Serroni preenche o palco com diversas gaiolas que os personagens precisam escapar, atravessar ou se aprisionar – trata-se de um ambiente lúgubre, cavernoso e desolado. Já os figurinos desenhados por Telumi Hellen e o visagismo idealizado por Louise Helène, se inspiram na figura de palhaços, porém colocando os personagens como figuras saídas de contos de terror. Este estilo sombrio e farsesco acabou informando a atuação do elenco que interpreta seus monólogos de forma declamatória (ou, talvez, empolada demais) – algo próximo ao trabalho vocal que Gabriel Vilela impõe em suas peças e que também já dá sinais de esgotamento.
Digo que a experiência foi intrigante porque o espetáculo simplesmente não funcionou. Ele não comunica direito. Me sentei na primeira fileira e o homem ao meu lado direito começou a cochilar logo no início de “Um Artista da Fome”, eu mesmo comecei a devanear enquanto Helio Cicero declamava o texto com os maneirismos impostos pela direção. Para não dizer que foi um fracasso total, uma mulher sentada na segunda fileira soltava, ocasionalmente, uns risos tímidos – ela tentou puxar aplausos no final do segundo monólogo, “Comunicado a uma Academia”, sem sucesso e também errando o momento no qual a declamação terminava (o mesmo ocorreu algumas vezes no monólogo final). Agora, é bem verdade que das 65 cadeiras do teatro do Núcleo Experimental, apenas 15 estavam ocupadas (isso numa numa estimativa otimista) – se a peça tivesse comunicação com o público, os outros 50 lugares estariam preenchidos. Passei a apresentação inteira tentando entender o porquê de estar entediado.
Senti pena do elenco, a culpa não está neles. Helio Cícero incorporava suas marcações como quem segue uma partitura, porém o estilo declamatório não bordava as palavras do texto; ao mesmo tempo essa forma de atuação funcionou muito bem para Pedro Conrado em sua composição, afinal um macaco que finge ser um humano provavelmente repetiria maneirismos com grandiloquência excessiva; apenas André Capuano foi capaz de escapar à estilização e interpretar seu monólogo com mais nuances. O problema tampouco está no texto: as pessoas podem achar que Kafka é complexo, mas esse definitivamente não é o caso já que seus escritos se abrem com tranquilidade para interpretação. Se o problema não está no texto, nem no elenco, está na direção: essa mesma estilização que, nos cenários, chama a atenção do olhar também é o que, no fim das contas, restringe a atuação do elenco e faz as cenas se arrastarem sem grandes novidades – o tom é sempre o mesmo.
Não se trata de um espetáculo ruim, apenas de uma peça que não tem uma boa comunicação com o público. O que é uma pena porque eu adoraria indicar Trilogia Kafka para dois amigos que já experimentaram produzir uma peça de terror nos palcos – existe algo a se extrair do trabalho de direção de arte; e até mesmo da digladiação que o elenco empenha contra suas marcações. O problema deste projeto está em ser o tipo de montagem que, se um desavisado entra no auditório para assistir, vai sair de lá jurando nunca mais voltar a um teatro.
“Trilogia Kafka” esteve em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental de 23 de maio a 30 de junho.
🖼️ EXPOSIÇÃO
Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros
O Teatro Experimental do Negro foi um coletivo formado por artistas pretos cuja atuação se estendeu pelas décadas de 1940 a 1960. Fundado por Abdias Nascimento, sua proposta era a valorização social de pessoas pretas e da cultura afro-brasileira por meio da educação e da arte, retirando-os da marginalização. Sua primeira formação era composta por operários e empregadas domésticas e, como alguns eram analfabetos, o TEN promoveu cursos de alfabetização para que eles pudessem ler os textos das peças. Além da própria figura de Abdias como diretor teatral, outros membros expoentes do grupo foram as atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia.
Em exibição no Instituto Tomie Ohtake, a exposição Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros traz uma coletânea de 110 itens – incluindo fotografias, recortes de jornais, cartas, programas e croquis – que resgatam a história do grupo teatral, ressaltando seu papel na evolução do teatro moderno no Brasil. Trata-se de uma exposição belíssima e muito rica: podemos reparar nas fotografias de Medeiros a sensibilidade e o respeito no retrato da luta por representação e dignidade travada pelo grupo. É um prato cheio para quem quer conhecer um pouco da História de nosso teatro.
Onde? Instituto Tomie Ohtake (R. Coropé, 88 - Pinheiros, SP)
Até quando? 03 de agosto. Aberto à visitação até às 18h
Quanto custa? É gratuito!
📖📺 PARA LER E ASSISTIR EM CASA
The Boys in the Band (1968), de Mart Crowley
Junho é o mês do Orgulho LGBT e, em comemoração, quero trazer aqui uma recomendação especial. Trata-se da peça The Boys in the Band (“Os Rapazes da Banda”), de Mart Crowley. A história se passa no decorrer de uma única noite e gira em torno de um grupo de amigos, todos gays, reunidos no apartamento de Michael para celebrar o aniversário de Harold; mas o aniversariante está atrasado e o que era para ser uma noite divertida e leve se transforma num momento tenso após a chegada inesperada de Alan, amigo de faculdade de Michael e um homem heterossexual conservador. Por meio do humor e com grande honestidade ao retratar seus personagens, a peça versa sobre o peso de se viver uma vida inteira dentro do armário e como o custo disso pode ser alto para pessoas homoafetivas.
The Boys in the Band foi pioneira no retrato de homossexuais nos palcos, sendo a primeira vez que a vida de homens gays era retratada sem tabus. Em 1970, sua primeira versão cinematográfica foi lançada sob a direção de William Friedkin. 50 anos após a estreia, o espetáculo foi remontado na Broadway com um elenco formado por atores assumidamente gays – este mesmo elenco se reuniu para as filmagens da segunda versão cinematográfica da peça, lançada pela Netflix em 2020. Desde 1968 até os dias atuais, a maneira como a sociedade se relaciona com pessoas LGBT mudou bastante: tivemos diversos avanços (e alguns retrocessos no meio do caminho). Dessa forma, se debruçar sobre esta obra se mostra uma maneira muito interessante de compreender o passado e pensar no futuro da nossa comunidade.
Onde posso comprar o livro?* No website da Concord Theatricals. Quanto custa? U$14,95.
* Coloco o website da editora por padrão editorial, . Mas esse aí eu comprei na Amazon
(procurando direitinho você acha o PDF por aí).Onde posso assistir aos filmes? A versão de 2020 está disponível na Netflix.
🟢 Textos sobre Teatro publicados na Revista Galérica
O que uma história contada há meio século tem a dizer sobre os dias atuais Uma revisita à peça “The Boys in the Band" e suas adaptações para o cinema, analisando o pioneirismo do texto no debate sobre a representação homoafetiva na ficção e a atualidade de seus temas.
Até a próxima! 👋
Você também assistiu alguma dessas peças? Ficou animado para ver alguma delas? Conta pra mim nos comentários! Espero que você tenha gostado das minhas opiniões singelas - nesse caso, lembre-se de deixar seu like. A próxima edição chegará na sua caixa de entrada no dia 27 de julho (último domingo do mês, como é de costume).
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