Janeiro de 2025
Número 01
Olá, te desejo boas-vindas à minha newsletter As Bacantes do Tietê. Todo último domingo do mês, irei te contar quais peças eu assisti e quais foram as impressões que tive de cada uma delas (a ordem de aparição sempre será alfabética). Nesta edição, também vou trazer uma dica de espetáculo teatral que você pode assistir no conforto de sua casa!
BRILHO ETERNO (2022), de André Magalhães e Jorge Farjalla a partir do filme de mesmo nome
O plano final do longa-metragem Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças mostra seus protagonistas Joel e Clementine correndo alegremente pela neve. De repente, a cena retorna ao seu início e o casal começa a percorrer aquele caminho de novo - cria-se um loop, como se a fita tivesse engasgado. Somado a tudo o que foi exposto durante o filme, essa cena final leva os espectadores a se perguntarem: “é melhor apagar as memórias de nossas dores, sob o risco de repetir nossos erros, ou é preferível enfrentar esses sofrimentos para depois seguir em frente?”
Ao contrário do filme, o espetáculo teatral Brilho Eterno tem o seu início com o loop, dessa vez os personagens Jesse (interpretado por Reynaldo Gianecchini) e Celine (Tainá Muller) se conhecem dentro de um elevador, como se fosse a primeira vez. O texto é livremente inspirado no longa-metragem, o que torna comparações inevitáveis. Um espectador que já tenha assistido ao filme irá se surpreender ao perceber que praticamente todas as cenas são novas e foram escritas para a peça. De um lado, isso traz frescor para a narrativa. De outro, resultou numa falta de aprofundamento nas questões suscitadas pelo o longa - a peça se limita a apenas contar aquela história.
Sob a direção de Jorge Farjalla, o espetáculo tem uma encenação bastante estilizada. Exemplo disso são os cientistas que operam o procedimento de apagamento das memórias: suas vestes remetem aos médicos medievais da peste bubônica. Se no longa-metragem, os cientistas são médicos de uma clínica qualquer, no espetáculo eles parecem cientistas malucos cujas intenções é erradicar um vírus (que se multiplica com uma variedade de cepas) ao qual conhecemos como “Amor”. Aliás, essa comparação do Amor com uma infecção pandêmica, me lembrou dos personagens titulares da peça Os Arqueólogos (2016), de Vinícius Calderoni.
Para quem não assistiu ao filme, a peça se sustenta sozinha, não sendo necessário conhecimento prévio da obra original. Além da atuação de Tainá Müller e do elenco de apoio, o que salta aos olhos é a cenografia composta por um cubo preto que se desmonta nos demais cenários - como um cubo mágico ou um quebra-cabeças a ser resolvido. O desenho de som e de luz também são assombrosos ao criar um espaço mental confuso e instigante.
SERVIÇO
Onde? Teatro Bravos (Rua Coropé, 88 - Pinheiros, SP)
Que dias? Sexta às 21h; sábado às 17h e 21h; domingo às 18h.
Até quando? 23 de fevereiro.
Quanto custa? R$180 (inteira - Plateia Premium); R$120,00 (Plateia Inferior); e R$50 (Mezanino)
Onde posso comprar os ingressos? No Sympla.
A GAIVOTA (1896), de Anton Tchekhov [Cia. Bípede, 2023]
O escritor russo Anton Tchekov é conhecido principalmente por suas últimas quatro peças, sendo elas: A Gaivota, Tio Vânia (1899), As Três Irmãs (1901) e O Jardim das Cerejeiras (1904) - todas encenadas pelo lendário Teatro de Arte de Moscou, fundado por Constantin Stanislavski e Vladímir Ivânovitch Nemirovitch-Dântchenco. Este ciclo representou uma ruptura no teatro clássico uma vez que não há ação dramática nas peças e o diálogo entre os personagens, por vezes, ocorre de maneira unilateral - ou seja, tratam-se de negações às características principais do drama. O que existe de interessante nessas peças está no comportamento de seus personagens e como eles interagem com suas próprias vidas, seus humores e emoções. Esta característica, por vezes ensimesmada, pode conferir um caráter melancólico e melodramático às encenações de Tchekhov, porém esse não é exatamente o caso.
Tchekhov caracteriza A Gaivota como “uma comédia* em quatro atos” e a montagem realizada pela Companhia Bípede, atualmente em cartaz no Teatro Itália, reforça o lado cômico do texto ao fazer uso de técnicas e caracterizações da palhaçaria para compor a linguagem da peça. O resultado acaba trazendo muito charme para o espetáculo, que cativa o público logo nos primeiros momentos.
(*aqui, mais no sentido de um drama da vida privada)
A trama se passa durante o verão em uma propriedade às margens de um lago. O jovem Trepliov (Thiago Winter), um aspirante a escritor, apresenta sua nova peça à família, mas tem suas expectativas frustradas pela reação de sua mãe, Arkadina (Renata Xá), uma atriz conceituada do teatro clássico, e do namorado atual dela Trigorin (Cristiano Kozak), um romancista em ascensão e da mesma idade do filho. A relação entre Trepliov e os parentes piora quando Nina (Alana Oliveira), a moça por quem é apaixonado, começa a gostar de Trigorin.
Ainda que o texto dê destaque para o quarteto, Tchekhov oferece uma variedade de personagens interessantes, cada um vivendo seus próprios dilemas e conflitos pessoais. Sob a direção de Felipe Sales, o elenco da Cia. Bípede se apresenta com muito entrosamento e agilidade para marcar o jogo proposto pela palhaçaria.
A montagem também é embalada por canções cantadas em coro pelo elenco e tocadas ao vivo com violões, acordeão, pandeiro e escaleta. Muitas delas já são bastantes conhecidas pelo público, como Proibida para mim, de Charlie Brown Jr, ou Sarà perché ti amo, do trio pop italiano Ricchi e Poveri. As canções parecem ter sido escolhidas meticulosamente para trazer novos significados à trama e, aliadas à palhaçaria, trazem cor ao espetáculo.
Mais do que uma maneira de reforçar o humor da peça, a palhaçaria faz com que o público se encante com aqueles personagens e se importe com eles. Nós, brasileiros, amamos comédias e rapidamente nos entregamos ao riso. Mas isso acaba se tornando uma armadilha - ainda estamos assistindo a um Tchekhov, lembre-se. Assim, por contraste, o humor, ausente no último ato, deixa o desfecho ainda mais comovente. Se sentimos carinho por Trepliov e amor por Nina, suas frustrações também se tornam as nossas. E, nesse sentido, a escolha por encerrar o espetáculo ao som de Mecânica Celeste Aplicada, de Yoñlu, é particularmente dilacerante.
SERVIÇO
Onde? Teatro Itália - Edifício Itália (Avenida Ipiranga,344 - República, SP)
Que dias? Quarta-feira às 20h.
Até quando? 19 de fevereiro.
Quanto custa? R$35,00 (meia-entrada) e R$70,00 (inteira)
Onde posso comprar os ingressos? No Sympla.

UM GRITO PARADO NO AR (1973), de Gianfrancesco Guarnieri [Teatro do Osso, 2025]
Em Um Grito parado no Ar, uma trupe ensaia uma peça faltando dez dias para a estreia. Enquanto isso, pressões externas interrompem o ensaio a todo o momento: credores retiram aos poucos os próprios elementos sobre os quais a montagem deveria erguer-se. Os ensaios são elaborados a partir de entrevistas realizadas com um coro de artistas e não-atores presentes em cena e que expõem a realidade social na qual vivem vivem.
Escrita pelo ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, a montagem original estreou cinco anos após a publicação do AI-5 e um ano após a dissolução da companhia Teatro de Arena (a sede do grupo, no entanto, segue operando atualmente). É um texto vinculado ao teatro de resistência, Guarnieri dizia que fazia “teatro de ocasião”, um teatro que “não faria se não fossem as contingências”. A obra reflete um momento difícil atravessado pela dramaturgia brasileira, que almejava discutir os problemas sociais ao mesmo tempo que precisava evitar alusões explícitas que pudessem ser vetadas. Ainda assim, Um Grito parado no Ar foi um dos primeiros espetáculos que conseguiram furar o cerco da Censura em plena ditadura militar.
A adaptação realizada pelo Teatro do Osso, transforma o texto em um ato-espetáculo musical baseado na peça de Guarnieri. Com dramaturgia de Jonathan Silva e Rogério Tarifa (também diretor), a peça procura trazer discussões contemporâneas para o centro da narrativa - por exemplo, a vivência de travestis (a partir do relato de Rommaní), além das ocupações estudantis em escolas públicas de segundo grau ocorridas em 2015. Se na montagem original o coro era ouvido por meio de gravações realizadas pelo próprio elenco, nesta montagem ele sobe ao palco: oito pessoas de diversos campos das artes (como canto, dança e teatro de rua) trazem uma multiplicidade de experiências pessoais e políticas.
É preciso ser honesto. As cenas que de fato são parte do texto de Guarnieri não despertaram tanto o meu interesse. Tenho a sensação de que, às vezes, peças de teatro sobre companhias de teatro montando peças de teatro acabam sendo interessantes apenas para quem… faz teatro. Fica parecendo um clubinho: só quem faz parte dele acha certas piadas engraçadas. Ao mesmo tempo, todas as vezes que as discussões escalonavam para os personagens berrando uns com os outros perdiam, de imediato, o meu interesse; eles pareciam muito rudes uns com os outros.
Agora, os momentos nos quais a peça brilha ocorrem, sem dúvida, quando o coro ganha destaque para narrar as suas vivências - ou quando os protagonistas deixavam de interpretar seus personagens para falar de si mesmos. Um dos relatos mais comoventes é o da cantora e ativista pelos direitos humanos sul-africana Nduduzo Siba, que relata sua experiência enquanto uma imigrante no Brasil e enquanto egressa do sistema penitenciário. Além da participação especial de Dulce Muniz (interpretando Flora), atriz que fez parte da fase final da companhia Teatro Arena: ela é responsável por resgatar a memória de sua professora de teatro, a atriz e diretora Heleny Guariba, uma opositora ferrenha ao regime ditatorial e, por isso, torturada e assassinada pelos militares - seu caso foi um dos investigados pela Comissão da Verdade (2011-2014).
SERVIÇO
Onde? Sesc Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185 - Campos Elíseos,)
Que dias? Sexta e sábado às 19h30, Domingo às 18h.
Até quando? 16 de fevereiro.
Quanto custa? R$60,00 (inteira); R$30,00 (meia-entrada) e R$18 (credencial plena)
Onde posso comprar os ingressos? No website do Sesc ou em qualquer unidade.
O JARDIM DAS CEREJEIRAS (1904), de Anton Tchekhov [Cia. da Memória, 2025]
Outro elemento comum às quatro últimas peças de Tchekhov é seu cenário: a ação se passa nos arredores de uma propriedade rural e dentro da casa de seus proprietários. Seus donos, descendentes de uma aristocracia decadente, já não moram mais lá, preferindo a vida nas cidades ou no exterior, relegando os cuidados e a administração dos negócios a um parente próximo e tampouco conhecedor das práticas de agropecuária. Este tema é marca de uma transição sociopolítica que ocorria na Rússia na qual tais propriedades eram vendidas a burgueses novos-ricos que sabiam como capitalizar a produção de maneira efetiva.
A última peça escrita por Tchekhov aborda diretamente esta temática. Em O Jardim das Cerejeiras, a propriedade dos Gáiev está prestes a ser leiloada para quitar as dívidas hipotecárias tornando incerto o destino do adorado jardim das cerejeiras, conhecido nacionalmente como o maior do país. A peça se inicia com o retorno de Liuba Andréievna (Sandra Corveloni) para sua casa de infância após viver em Paris. Ela é recebida por seu irmão Leonid Gáiev (Mario Borges) e por Ermolai Lopakhine (Caio Juliano), um homem enriquecido e filho de servos da propriedade que a lembra do leilão lhe trazendo uma proposta indecente: derrubar as cerejeiras para construir casas de veraneio no terreno.
Sob a direção de Ruy Cortez, a montagem encenada pela Companhia da Memória, é mais contemporaneizada: balões flutuantes na plateia fazem as vezes do jardim das cerejeiras; figurinos monocromáticos marcam tanto a mudança de ato, quanto a mudança de ambiente, constituindo-se também enquanto cenário. Uma passarela em formato de rampa irrompe o proscênio atravessando a plateia por cima das poltronas (fazendo com que, infelizmente, os melhores lugares do Teatro Anchieta estejam indisponíveis): separadas, a reação das duas metades da plateia demora a chegar de um lado para o outro, resultando na perda da comunhão existente no teatro - algo que pode ser tanto negativo, como também símbolo da incomunicabilidade dos personagens tchekhovianos.
Já é comum na montagem de clássicos a escolha de pautar a seleção do elenco por meio do color blind casting, no qual a cor de pele dos atores não é considerada ao distribuir os personagens. Aqui, no entanto, me parece deliberada a escolha de escalar Beatriz Napoleão para interpretar Ánia, filha consanguínea de Liuba e símbolo de um juventude esperançosa por um futuro novo, e Caio Juliano como Lopakhine. Com Lopakhine, uma alteração no texto é promovida: seus pais e avós não foram simplesmente “servos” da propriedade, mas “escravizados” - uma mudança de termos que facilita ao público brasileiro a estabelecer relações entre o sistema de servidão da Rússia aristocrática com o nosso sistema de escravidão. Assim, torna-se ainda mais simbólico o fato de Lopakhine ser a pessoa que arremata em leilão a propriedade e o jardim das cerejeiras. Pode-se levantar duas hipóteses para essa ação: de um lado, ela é proveniente de um ressentimento de classes, um ato talvez vingativo. De outro lado, ele é vítima de uma crença falaciosa na meritocracia liberal - Lopakhine afirma que trabalhou duro e, por isso, conseguiu enriquecer, no entanto, a estrutura não se movimentou para os demais trabalhadores da propriedade, que ainda dependem desesperadamente da boa vontade de Liuba e, agora, de Lopakhine, para manter seus empregos.
SERVIÇO
Onde? Teatro Anchieta - Sesc Consolação (R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque, SP)
Que dias? Sexta e sábado às 20h, domingo às 18h.
Até quando? 02 de março.
Quanto custa? R$70,00 (inteira), R$35,00 (meia-entrada) e R$21,00 (credencial plena)
Onde posso comprar os ingressos? No website do Sesc ou em qualquer unidade.
📺 Para assistir em casa
Nesta seção, recomendarei pro-shots de peças teatrais que você pode assistir em casa!
Romeu e Julieta (c. 1597), de W. Shakespeare [Grupo Galpão, 1992 / 2012]
Quero abrir esta seção em grande estilo. Então vou recomendar para você a montagem de Romeu e Julieta realizada em 1992 pelo Grupo Galpão sob a direção de Gabriel Villela. Essa é, talvez, uma das montagens mais importantes do teatro brasileiro* e, felizmente, uma apresentação da temporada de 2012 foi gravada.
* (ao menos a montagem brasileira mais importante dessa peça do Bardo)
Bom, o Grupo Galpão é uma companhia teatral de Belo Horizonte (MG) que tem sua origem ligada ao teatro popular e de rua. Ao mesmo tempo, o grupo não possui um método ou linguagem definida, explorando possibilidades variadas ao trabalhar com diversos diretores e diretoras convidadas. Agora, é muito fácil de perceber quando estamos assistindo a uma peça de Gabriel Villela já que, além de dirigir, ele costuma assinar o figurino e a cenografia - sempre com um estilo barroco e declamatório, ao mesmo tempo, inspirado na palhaçaria. Por mais que Gabriel esteja montando um texto estrangeiro, ele sempre tenta dar um toque de brasilidade - pelo menos ao escolher canções populares de nosso país para embalar o espetáculo.
A primeira temporada de Romeu e Julieta ocorreu entre setembro de 1992 e abril de 1994, mas foi interrompida com o falecimento da atriz Wanda Fernandes, que interpretava Julieta. A peça retornou em cartaz em maio de 1995 com Fernanda Vianna assumindo o papel titular e permaneceu em cartaz até 2003. A peça foi remontada em 2012 para as comemorações de 30 anos da companhia - foi quando Paulo André assumiu os papeis do Frei e de Teobaldo, antes interpretados por Chico Pelúcio. Foi a primeira (e até hoje a única) montagem brasileira a ser apresentada no Shakespeare’s Globe (réplica oficial do teatro do Bardo em Londres), feito realizado tanto em 2000 quanto em 2012. O Galpão também apresentou a peça em vários países da América Latina, Europa e nos Estados Unidos.
O que encanta nessa montagem é a maneira como eles usam a cultura popular brasileira para encenar esta história trazendo muito humor e uma beleza festiva para essa tragédia - algo que encantou os londrinos. Romeu e Julieta era encenada ao ar livre com um carro fazendo as vezes de cenário; o elenco andava com o auxílio de pernas de pau. E mesmo com tanta alegria, eu me emociono toda vez que assisto aos momentos finais da peça (em especial a cena da morte de Julieta e os agradecimentos). Se eu fosse você, aproveitaria a tarde de domingo e assistiria sem hesitar!
Onde posso assistir? No canal YouTube do Grupo Galpão.
* Ou você pode comprar o DVD na loja virtual do Grupo Galpão. Quanto custa? R$20,00.

🟢 Textos sobre Teatro publicados na Revista Galérica
“O Teatro é um ritual, uma macumba. Eu estou aqui, mas eu vivo teatralmente” José Celso Martinez Corrêa tinha uma maneira de falar e existir que refletia seus anos de luta | Reportagem de Giordano Pienegonda
Olhe Para o Lado Crítica do espetáculo Eu de Você, de Denise Fraga | por Pedro A. Duarte
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ATÉ A PRÓXIMA! 👋
Você também assistiu alguma dessas peças? Ficou animado para ver alguma delas? Conta pra mim nos comentários! Espero que você tenha gostado das minhas opiniões singelas - nesse caso, lembre-se de deixar seu like. A próxima edição chegará na sua caixa de entrada no dia 23 de fevereiro (último domingo do mês).
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Parabéns pelo trabalho Pedro, eu que estou longe do Brasil e tenho pouco tempo livre, pude me atualizar com suas experiências.
Obrigado!