Dezembro de 2025
Número 12
Oiê! Tudo bem? Nesta edição, vou comentar sobre as peças Bikannie, (Um) Ensaio sobre a Cegueira, A Máquina e O Sapateiro Ruço. Também irei trazer uma dica de peça para você assistir em casa.
BIKANNIE: UMA AVENTURA SOBRE DUAS RODAS (2025), de Carolina Portella e Mariana Rhormens [Cia. Malunga]
Neste espetáculo infantil, as palhaças Babalu (criação de Carolina Portella) e Kumbuka (Mariana Rhormens) decidem refazer o itinerário percorrido por Annie Londonderry ao redor do mundo. Nascida Annie Cohen Kopchovsky, a jovem letã-estadunidense foi a primeira mulher a dar a volta ao mundo em cima de uma bicicleta (e navios, para cruzar o oceano). Com texto escrito pela dupla, a trama acompanha a viagem das palhaças enquanto elas rememoram a história e os feitos de Annie, que troca a saia por calças para ter mais mobilidade, inspira mulheres por onde passa, além de se tornar uma pioneira do marketing – seu nome artístico “Londonderry”, na verdade, era uma marca de refrigerante que topou patrocinar a viagem.
Um espetáculo que versa sobre liberdade feminina e independência sem precisar ser panfletário, uma vez que se vale do espírito de aventura e encantamento para naturalizar a presença feminina em uma área onde a maioria dos protagonistas costumam ser homens – podemos pensar em Robert Bartlett e suas expedições ao Ártico ou nos ficcionais Phileas Fogg e Passepartout, de Jules Verne, em sua volta ao mundo em 80 dias. Mais do que isso, Bikannie: Uma Aventura Sobre Duas Rodas também leva seus espectadores a exercitarem um senso de curiosidade para conhecer outras culturas e novas histórias.
A dupla Babalu e Kumbuka demonstra uma técnica de palhaçaria afiada e uma dinâmica deliciosa de acompanhar. Sob a direção de Maristela Chelala, o espetáculo traz diversos elementos lúdicos como bonecos e adereços que rapidamente criam novos ambientes – países como Alemanha, Itália e Turquia são contemplados durante a viagem, com pequenas curiosidades culturais sendo polvilhadas pelo caminho. Já a direção musical de Max Huszar, que também estava em cena tocando os instrumentos, valia-se do banjo para evocar um clima pacato e campestre.
“Bikannie” iniciou sua temporada no auditório do Sesc Vila Mariana em 02 de novembro, onde permaneceu em cartaz até 14 de dezembro.
(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (2025); de Rodrigo Portella a partir de Saramago (1995) [Grupo Galpão]
Desde quando foi anunciada em março, a adaptação realizada pelo grupo mineiro de um dos clássicos de José Saramago gerou expectativas aos frequentadores da cena teatral – o burburinho só fez aumentar durante as temporadas do espetáculo em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, antes da trupe chegar à São Paulo. Elaborado em comemoração aos 30 anos da publicação de Ensaio Sobre a Cegueira, o espetáculo leva a história para os palcos por meio da dramaturgia e direção de Rodrigo Portella e detém-se nos dois primeiros terços da trama – durante os quais uma epidemia de cegueira branca acomete uma cidade e o período no qual os pacientes iniciais passam em quarentena dentro de um manicômio desativado. A encenação também dava a oportunidade para que 14 espectadores pudessem participar do espetáculo: conforme mais cegos chegavam ao manicômio, membros da plateia subiam ao palco e eram vendados, passando o restante da peça em meio ao elenco e participando das cenas.
De saída, o que chama a atenção é a similaridade da trama com os primeiros meses da pandemia de covid-19, assim como o período de quarentena subsequente. Assim como o período em que as personagens precisam lidar com o “mal branco” na trama, o nosso período sob o Sars-Cov-2 escancarou as desigualdades sociais e o despreparo (muitas vezes intencional) dos governantes – mesmo o trato dos militares com os internos do manicômio nos remetem ao descaso e aos abusos de poder que essa classe demonstra na realidade (lembro aqui do massacre ocorrido no Rio de Janeiro em 28 de outubro). Assistindo ao espetáculo percebemos como ainda estamos lidando com o trauma daquele período e, assim, ao reviver esses aspectos por meio de uma fábula podemos elaborar nossas dores e buscar curas possíveis.
Tanto no livro como na peça a cegueira serve de metáfora para a indiferença, o egoísmo e a tirania. Ainda que todos estejam no mesmo manicômio, os antagonistas operam pela lógica de “cada um por si”. É uma obra que versa sobre nossa impotência diante de conflitos e explora a maneira como crises humanitárias revelam a fragilidade de nossos limites éticos para evitar a barbárie. Como boas dramaturgias demonstram, são nesses momentos que as decisões e as ações de um indivíduo revelam qual é a sua verdadeira índole.
A encenação de Rodrigo aposta na essência da teatralidade ao valer-se de mecanismos do teatro épico. Por isso, o espaço cênico é despojado e possui poucos elementos (cadeiras, tampo de mesa e até holofotes) que são manuseados pelo próprio elenco. Com isso, em vez de uma representação literal há um convite para preencher as lacunas por meio da imaginação. E se a escrita de Saramago borra os limites de narrador e personagens ao separar os diálogos da narração valendo-se apenas de uma vírgula, a peça borra estes mesmos limites ao colocar o elenco para narrar cada cena e oscilar entre a voz de um narrador e a voz da própria personagem que interpreta, ou até oscilar entre a descrição de um momento e sua realização cênica.
Se para Saramago o “ensaio” fazia referência a um gênero literário especulativo, o “ensaio” do Grupo Galpão também é literalmente um ensaio teatral: juntos, eles tentam encontrar uma maneira de levar a fábula do escritor português aos palcos. Ao mesmo tempo, os momentos cômicos da peça, sua trilha musical instigante, a curiosidade provocada pela interatividade, seus momentos de grande dor e angústia também são uma tentativa de elaborar sobre um trauma e, quem sabe, encontrar uma cura.
Observadores mais atentos, irão reparar que o remédio proposto por essa montagem está na coletividade. Na trama, uma mulher, por qualquer motivo, é a única a não cegar: em vez de utilizar o privilégio de manter uma habilidade fundamental – a de ver sem ser vista – para subjugar os demais, sua angústia lhe faz sentir vontade de cuidar dos outros. Este mesmo cuidado é visto no trato com o qual cada integrante do grupo lida com os membros da plateia que viverão a experiência de participarem da peça vendados. É o mesmo cuidado que se manifesta quando se fala que mesmo aqueles do dormitório que não puderem pagar também comerão.
Assim como Eu de Você só terminava com um espectador subindo ao palco para ajudar Denise Fraga, em um gesto de empatia e aproximação, (Um) Ensaio Sobre a Cegueira só termina quando toda a plateia se engaja com a experiência e, juntos, deixam o auditório para ocupar as ruas. Mais do que um grito pela liberdade, mais do que romper com o isolamento, a ocupação do espaço público de forma coletiva ainda é a ferramenta mais forte de expressão política – vale lembrar como os protestos de 21 de setembro contra a PEC da Blindagem fizeram com que o Senado rejeitasse, por unanimidade, a proposta enviada pela Câmara apenas três dias após as manifestações.
O ato de procurarmos por uma saída juntos também remete a dimensão pública do teatro: sem a união entre os membros de um elenco no fazer teatral, nenhuma peça fica interessante; sem uma plateia no auditório, essa peça não se concretiza – é uma experiência que precisa ser vivida coletivamente e precisa ser feita para o coletivo. Independente da versão, essa história deixa evidente que abandonados à própria sorte e sozinhos, nenhum dos internos sobreviveria. Mas o Ensaio Sobre a Cegueira de Rodrigo e do Galpão nos aponta: é preciso encontrar uma maneira de atravessar a crise por meio da coletividade.
“(Um) Ensaio Sobre a Cegueira” estreou dia no Sesc 24 de Maio dia 20 de novembro, onde permaneceu em cartaz até 14 de dezembro.
A MÁQUINA (2000); de João Falcão a partir do romance de Adriana Falcão (1999) [Coletivo Ocutá, 2025]
Em 02 de março de 2023, o Coletivo Ocutá, formado por quatro jovens atores pretos, fez sua estreia na cena teatral com uma adaptação de O Avesso da Pele, livro de Jeferson Tenório que acompanha o jovem Pedro em sua reconstituição da vida e a morte do pai, o professor Henrique, assassinado em uma abordagem policial. O espetáculo rompeu o burburinho inicial tornando-se um dos destaques daquele ano, sendo elogiado tanto pela crítica quanto pelo público que os assistia.
Em outubro deste ano, a trupe estreou outra obra teatral que adapta um livro brasileiro. Trata-se de A Máquina, um texto escrito (e dirigido) por João Falcão a partir do romance de sua esposa Adriana Falcão. Quando a primeira montagem estreou há 25 anos em Recife, ela tinha em seu elenco uns tais de Gustavo Falcão, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Wagner Moura – atores baianos desconhecidos e que, como o Tempo nos mostra, se tornaram estes nomes que dispensam grandes apresentações. Sucesso de público e crítica, esta peça foi a responsável não só por revelar os atores de seu elenco ao Mundo como também por consolidar as principais características do teatro de João – um corpo de obra que costuma versar sobre passado, presente e futuro; tempo e memória. Trata-se de um legado significativo para o Coletivo Ocutá levar adiante.
Assim como em sua primeira versão, essa montagem também é dirigida por João Falcão (Gustavo, por sua vez assina a co-direção e a preparação corporal) e quem assume o papel da mocinha é Agnes Brichta – sim, é um teatro feito em família. A trama se estrutura como uma fábula sendo situada em Nordestina, cidade no interior do interior do nordeste onde nada acontece e cujos moradores ambicionam sair dela e ir para o Mundo em busca de trabalho e coisas mais interessantes para fazer. O sonho de Karina é ir para o Mundo se tornar atriz de novela, só que Antônio (interpretado simultaneamente pelos quatro atores que compõem o Coletivo Ocutá) não quer ver sua namorada partir. Então, o rapaz vai, ele mesmo, para o Mundo com o intuito de trazê-lo até Nordestina. Como forma de atrair o Mundo todo para aquele lugarejo, ele promete que irá viajar no Tempo.
Contar a sinopse da peça é praticamente contar sua história inteira, é basicamente isso o que acontece nela. Porém, ainda que a trama pareça ser simples, o que há de interessante é a maneira como ela é contada: os quatro atores narram a história valendo-se da poesia contida nas palavras de Adriana e João, sempre conversando com o público e sustentando o olho-no-olho. Nesse sentido, A Máquina parece uma sucessora natural para O Avesso da Pele: são peças energéticas, pulsantes e que cativam seus espectadores muito pelo carisma do elenco. O quarteto Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto se mostram à vontade como Antônio compondo um personagem cheio de vitalidade, enquanto Agnes desponta como uma excelente comediante e uma mocinha apaixonante. Trata-se de um elenco bastante equilibrado: ao mesmo tempo em que é possível reparar nas particularidades da interpretação de cada artista, todos compartilham os holofotes – e talvez esta seja a receita para a movimentação suave das engrenagens do espetáculo.
Outra coisa que chama a atenção está na simplicidade do cenário: ele é praticamente inexistente. Cercados por quatro arquibancadas, há apenas o elenco e uma história para contar. Ainda que a iluminação e a sonoplastia ajudem a criar a ambientação do espaço e da passagem do Tempo, esse dispositivo cênico fazia um convite para que os espectadores se deixassem levar pela história narrada pelo protagonista, deixando a imaginação voar – o que, por sua vez ressalta o caráter fabular da história. Assim, só seria possível tirar proveito do espetáculo se pegarmos na mão dos rapazes e nos permitirmos acreditar…
…no fim das contas, o X da questão está justamente em acreditar ou não. Antônio promete que irá viajar 25 anos rumo ao futuro, porém, assim que realiza seu truque, ele retorna para o exato segundo em que havia ido embora – quase como se ele não tivesse se movido. Para que os moradores de Nordestina e os cidadãos do Mundo realmente acreditem na façanha, o rapaz conta o que irá acontecer no futuro próximo. Antônio se torna quase um profeta ao pintar um futuro melhor para Nordestina e seus habitantes: as coisas que conta realmente passam a acontecer.
Talvez ele não tenha realmente viajado para o futuro, suas profecias podem não ter passado de um blefe. Pouco importa: o simples fato das pessoas acreditarem nele, acreditarem que um futuro melhor seria possível, fez com que aquela realidade se concretizasse. É preciso acreditar nos atores que nos contam a história, é preciso acreditar no futuro que Antônio nos propõe. A Máquina nada mais é do que um exercício de fé.
Esta montagem de “A Máquina” estreou no Teatroiquè em 09 de outubro, permanecendo em cartaz até 14 de dezembro.
O SAPATEIRO RUÇO (2023); de Carlos Escher a partir de Tchekhov (1888)
Anton Tchekhov é conhecido principalmente por suas peças de teatro que, além de versar sobre angústias comuns a todos nós, retratam um momento muito particular da sociedade russa: o momento de virada no qual uma aristocracia decadente passa a dar lugar a uma burguesia agrária e algum descontentamento sentido nas classes trabalhadoras pode levar a uma revolução. Para além de seu trabalho no teatro, Tchekhov também escreveu romances, contos e reportagens e é justamente um conto que o monólogo infantil O Sapateiro Ruço adapta.
Com texto escrito por Carlos Escher (que também atua), a peça conta a história de um sapateiro que se vê obrigado a trabalhar na noite de natal enquanto o restante da cidade se diverte. Cansado fisicamente e descontente com o desaforo dos ricos, ele cai no sono. Em seu sonho, o sapateiro encontra uma criatura mágica que o promete transformá-lo em um homem rico em troca de sua alma. Assim, a peça aborda a desigualdade social, os privilégios e o mundo do trabalho.
É interessante reparar como um setor do teatro infantil tem se mostrado bastante politizado, se dedicando a abordar pautas sociais para as crianças. Podemos pensar em Bikannie (citada acima) e sua abordagem feminista e O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, da Cia Novelo, e sua história que serve de metáfora para relacionamentos LGBT e sobre papéis de gênero. São peças nas quais é possível reparar não só em um cuidado na proposta de levar temas que, a princípio, parecem ser complexos (mas não deveriam ser); como também em um esmero na pesquisa da linguagem teatral adequada para que esses temas sejam facilmente compreendidos pelas crianças – ou para que, ao menos, alguma pulguinha passe a habitar a parte de trás de suas orelhas.
Além da posição de privilégio que faz com que as elites se sintam no direito de abusar da classe trabalhadora, O Sapateiro Ruço também demonstra como a vida dessas elites é constrita em modos de agir e de se comportar – uma vida de aparências e cheia de ditames que impede que se desfrute plenamente das coisas boas que o dinheiro pode trazer. Seu protagonista percebe as injustiças sociais, entende que algo precisa melhorar. Porém, ele ainda não sabe como.
Talvez se possa pensar que um monólogo é um formato muito denso para crianças. Ainda assim, sob a direção de Cássio Brasil (que também assina a cenografia e os figurinos), os 60 minutos do espetáculo passam voando – muito por causa de seus efeitos práticos. Inspirado nas carroças e palcos mambembes da Idade Média, o cenário é uma grande caixa de madeira que serve como a loja do sapateiro, armários e até o hall de entrada de mansões – junto ao jogo de luz e auxiliado pela manipulação dos contrarregras, a narração ganha dinamismo nessa brincadeira de montar e desmontar aquela caixa, quase como se ela fosse um convite para investigar seus mistérios.
O monólogo para crianças “O Sapateiro Ruço” iniciou sua temporada no Auditório do Sesc Pinheiros em 02 de novembro, onde permanece em cartaz até a tarde de hoje – os ingressos para as sessões das 15h e 17h estão disponíveis para compra tanto no website quanto em qualquer unidade.
📺 PARA ASSISTIR EM CASA | O Bosque dos Sonâmbulos (2022), de Matheus Marchetti
Em homenagem ao ator Tony Germano, falecido em 26 de novembro, o proshot da segunda temporada do musical O Bosque dos Sonâmbulos, realizada no Teatro Viradalata em 2023, foi disponibilizada de forma gratuita no YouTube. Tony foi o único ator que participou de todas as versões dessa história: interpretou o personagem Tonino em ambas as temporadas do musical, bem como de sua versão audiovisual original – um curta-metragem realizado como TCC de Matheus para sua graduação em Cinema.
O musical é um conto de amadurecimento vampiresco no qual Oliver (Mateus Torres) retorna ao hotel em que passava suas férias de verão na infância com o intuito de investigar o desaparecimento de seu irmão Thomas (Giuliano Garutti). No período da infância, enquanto Oliver (Lucas Bocalon) se preocupa em explorar o hotel e faz amizade com Tonino, Thomas descobre a paixão e a sexualidade ao se encantar com um jovem violinista (Jow Black) de uma trupe de artistas.
Onde posso assistir? No YouTube.
Quanto custa? É gratuito!
* O curta-metragem também está disponível na plataforma de streaming Filmicca mediante a assinatura.
Até a próxima! 👋
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Na próxima terça feira, dia 23, teremos uma edição especial relembrando as peças que foram destaque neste ano. A próxima edição tradicional chegará na sua caixa de entrada no dia 25 de janeiro de 2026. Neste meio tempo, te desejo ótimas festas e um feliz ano novo!
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